Fama, cirurgias e risco de morte: caso de youtuber expõe perigo da “busca por likes”

  • Por Elisa Feres/Jovem Pan
  • 08/02/2018 13h30
Reprodução/InstagramImagem de pré-operatório de uma das intervenções de Camilla Uckers

Sabe Black Mirror? Aquele seriado da Netflix que faz um retrato sombrio da sociedade moderna ao evidenciar conflitos que envolvem a natureza humana e a tecnologia? Então. A história da youtuber Camilla Uckers poderia facilmente render um dos episódios mais agoniantes da trama.

A cearense, atualmente com 26 anos de idade, criou um canal no YouTube em 2010. A ideia era compartilhar pensamentos, piadas, conselhos, músicas. Enfim, coisas banais e cotidianas que pudessem ser divertidas. E deu certo. Em pouco tempo, a garota se tornou popular na internet e conquistou milhões de seguidores, tanto nesse canal como em suas outras redes sociais.

Acontece que, desde o início, ela sempre demonstrou certa insatisfação com o próprio corpo. Já no sexto vídeo publicado, por exemplo, aparece fazendo um apelo para que o Dr. Robert Rey, cirurgião plástico de celebridades, aceite operá-la. “Meu maior sonho é algum dia poder colocar silicone com ele. Tudo que eu mais quero é que você, doutor, olhe seu e-mail. Mando e-mail para você todos os dias. Sou sua fã”, diz.

O início de tudo

Rey não aceitou operá-la. Mas outros médicos aceitaram. Camilla colocou próteses nos seios, fez preenchimento labial, passou por uma lipoaspiração, colocou silicone nas nádegas, operou o nariz, o maxilar, a maçã do rosto.

As intervenções mais recentes foram em dezembro de 2017. E é aqui que a história fica obscura. Infelizmente, Camilla teve uma série de complicações após os procedimentos. Perdeu muito sangue e teve que fazer uma transfusão. Pegou uma inflamação grave no nervo ciático e foi parar em uma cadeira de rodas. Emagreceu e ficou desnutrida, chegando a pesar pouco mais de 30 kg. Contraiu hematomas e manchas enormes pelo corpo. Até ser informada que, se não retirasse os implantes, teria uma infecção generalizada e correria risco de vida.

Todo esse processo foi relatado em seu Instagram. “Eu estava no Rio de Janeiro quando minha bunda começou a soltar pus. Meu médico disse ‘ou tira a prótese ou morre’. Voltei para Fortaleza, fui internada às pressas com febre alta por conta da infecção. Quase morri. Agora estou com problemas de aceitação. Não consigo me olhar no espelho. Está sendo muito difícil para mim. Sinto muitas dores”, diz em uma série de vídeos intitulada “Esclarecimentos”.

“Eu queria dizer que estou tentando me recuperar. Me reerguer. É muito difícil ouvir o médico dizer ‘ou tira ou morre’. Pensei no que as pessoas iam pensar de mim. Se eu tirasse, o que vocês iam pensar? Mas tive que tirar. Vou fazer acompanhamento psicológico para tentar conviver com isso. Minha bunda está com muita estria. Mas existem aquelas tatuagens que tiram estria, né, vou ver isso depois”.

Erro médico e processo na Justiça

Camilla também afirmou aos seus seguidores que acredita que as complicações aconteceram por conta de um erro médico e revelou que já abriu processo na Justiça contra o profissional responsável pelos procedimentos, o Dr. Danilo Rocha Dias, que atende no Blue D Cirurgia Plástica & Spa, em Fortaleza.

Reprodução/Instagram“Vamos em busca de justiça no Conselho de Medicina – CRM. Não é possível que a classe médica não faça nada diante de tantas provas que tenho dos erros e atitudes antiéticas desse médico. O meu estado de saúde após os procedimentos cirúrgicos realizados pelo Danilo Dias é penoso. Impossível para mim não compartilhar com vocês o dia a dia dessa difícil e incerta recuperação com sequelas ainda hoje. Fica o alerta, por responsabilidade e atenção com os meus seguidores e fãs, que se deve procurar um profissional capacitado para realizar qualquer intervenção médica. Com fé em Deus, a justiça será feita”, escreveu ela como legenda de uma foto do processo.

A youtuber ainda mostrou nas redes um print de uma conversa antiga que teve com o médico. Ela contou que não pagou pelas intervenções, pois ele queria apenas que ela divulgasse seu nome na internet. Na troca de mensagens, ele pede para que ela não comente isso com ninguém e finja que realizou o pagamento de R$2,5 mil pelas próteses e R$20 mil pela cirurgia.

Em entrevista recente ao O Povo, Danilo Dias alegou inocência. “A cirurgia da paciente durou cerca de três horas e ocorreu sem nenhum problema. A equipe médica é muito experiente e trabalha junta há muito tempo”, garantiu à publicação.

A busca por likes e seguidores

Mesmo em meio ao caos, as redes sociais da cearense continuaram movimentadas. Em algumas publicações, ela compartilhou montagens de fotos de sua recuperação ao lado de reproduções de filmes de terror, fazendo piada com a situação. “Quem acha que tô parecendo a menina do Exorcista curte kkkkkkkkkk”, brincou.

Nos últimos dias, no intervalo das novidades sobre seu estado de saúde, aproveitou para divulgar o lançamento de um single (segundo suas palavras, “aposta de hit neste carnaval”), postar o “look do dia” de seu reveillón, compartilhar uma imagem de sua festa de aniversário e até sortear um brinde (um iPhone X) para conquistar curtidas e seguidores. Mais curtidas e seguidores.

Cirurgia plástica em jovens: pode ou não pode?

De acordo com o psicoterapeuta Leo Fraiman, a cirurgia plástica não precisa ser “demonizada”. Até mesmo para jovens e adolescentes, ela pode ser recomendada. Mas atenção: apenas em alguns casos e com uma série de ressalvas.

“A intervenção pode acontecer quando alguma característica física da pessoa em questão possui uma disfunção real e/ou causa notadamente um prejuízo na imagem social e na sociabilidade. Eu já tive pacientes com problemas por conta de uma orelha curvada para dentro. ‘De abano’, como falam. Se isso o torna alvo de bullying ou causa qualquer tipo de desconforto, tudo bem operar. Existem casos de mamas muito pronunciadas também, ou até o contrário, pouco desenvolvidas. Acontece”, explicou.

Antes de qualquer tipo de operação, porém, o profissional afirma que o jovem e sua família precisam obrigatoriamente passar por uma orientação psicológica. É possível, segundo ele, que a característica física que seria alvo de tratamento encubra outras insatisfações pessoais, por exemplo. Neste caso, a operação não adiantaria de nada. Além disso, não são todos que estão preparados para passar pela mesa de cirurgia. Há riscos de consequências físicas e psicológicas.

“Eu já tive um paciente que fez implante nas nádegas e não se sentiu à vontade com o resultado. Precisamos entender que, na adolescência, algumas partes do cérebro ainda não estão desenvolvidas. Assim como a relação ‘causa e efeito’. Isso gera uma tendência à impulsividade. Em todas as áreas, incluindo em relação a procedimentos estéticos, é natural e normal que os jovens sejam mais impulsivos e não consigam medir as consequências de certos atos. Isso pode acontecer até os 25, 30 anos. Algumas pessoas amadurecem mais cedo, outras mais tarde. Outras não amadurecem nunca (risos). Um bom médico não deveria operar quem não está pronto. Nenhum médico ético pode fazer isso”, disse.

Transtorno de personalidade narcisista

Existem diversos fatores que fazem com que os jovens sintam um desejo incontrolável (e muitas vezes até inconsciente) por popularidade. O menor sentimento de comunidade nas sociedades modernas e o menor vínculo com pessoas próximas como família e amigos são alguns deles. Para a psicologia, há ainda um transtorno chamado de Transtorno de Personalidade Narcisista.

“Isso não é engraçadinho. É um transtorno sério que triplicou nas últimas duas décadas. Os jovens acabam investindo em views, likes e compartilhamentos para tentar compensar sintomas de solidão”, explicou Fraiman. “Assim como em toda doença, o primeiro passo é reconhecê-la para em seguida começar a entender o que de fato gera uma vida realmente feliz. A palavra-chave aqui é moderação. Precisamos entender de uma vez que ficar na internet antes de dormir faz mal. Que entrar no celular como a primeira atividade do dia faz mal. Que nos conectarmos em meio a atividades importantes faz mal. Que precisamos ter mais atenção com os vínculos sociais. A ciência mostra que um uso cuidadoso das redes pode ser bom. E mostra que o exagero pode ser muito perigoso”.