Neste domingo (27), o mais brasileiro de todos os ritmos completa 100 anos. Mas o que não falta na história do nascimento do samba são controvérsias.

Ouça AQUI a reportagem especial de Victor LaRegina com sonorização de André Luiz.

"Pelo Telefone", Donga mandou avisar que aquele ritmo novo, vindo do maxixe, havia chegado para ficar. A composição de Ernesto Maria dos Santos foi o primeiro samba a ser registrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Um marco que simboliza o nascimento do samba, em 27 de novembro de 1916. Mas vocês podem imaginar como é dificil afirmar quando que um ritmo surgiu.

O escritor e jornalista Ricardo Cravo Albin avalia que "27 de novembro marca apenas o registro da música na biblioteca nacional, mas não é o nascimento do samba".

Albin considera que o mais brasileiro de todos os ritmos nasceu no começo de 1917, quando Pelo telefone embalou o carnaval da época. "O nascimento de uma música ocorre quando ela se torna pública e quando ela é impressa na sua estrutura e enviada naturalmente para as estantes do músico".

O sotaque do samba

No Rio de Janeiro do início do século, na casa da baiana Tia Ciata, muitas composições que saíam dali, passaram a marcar a cena cultural da época.

Mas o sambista paulistano Osvaldinho da Cuíca lembra: apesar do local, os primeiros sambas tinham um outro sotaque

"O samba ainda estava com o sotaque nordestino, maxixe, oriundo do nordeste", explica Osvaldinho. "E o Rio de Janeiro foi praticamente o berço do samba porque aprimorou, desenvolveu e tratou com muito mais seriedade o samba que qualquer outro Estado do País".

Da Bahia, para o Rio. Do Rio para o mundo. Mas São Paulo também faz parte dessa história.

Samba em Sampa

No largo da Banana, na Barra Funda, operários e negros recém-libertos faziam o que Mário de Andrade chamou de samba rural paulista.

O sambista, sociólogo e pesquisador Tadeu Kaçula fala que o cordão carnavalesco compôs músicas dois anos antes de Pelo Telefone.

"O grupo Barra Funda, fundado por Dionisio Barbosa e Luiz Barbosa em 2014, já em 14 sai com música própria fazendo todo o cortejo carnavalesco nas ruas do bairro", diz Kaçula.

Uniforme

Mas tem uma coisa que Tadeu e Osvaldinho lamentam: o samba de São Paulo aos poucos perdeu a sua essência, o seu diferencial.

"A batida do samba era igual à do nordeste, que era samba também, com outros nomes. Hoje não tem mais, virou tudo uma célula única, aquele samba carioca, do Estácio, da Vila Isabel, e ponto final", diz Osvaldinho.

O poder da rádio nacional e o uso do ritmo como propaganda política na Era Vargas uniformizaram a forma de fazer o carnaval.

"Assim como a salsa está para Cuba e o Jazz para os EUA, o samba está para o Brasil sobretudo nesse período em que Getúlio Vargas institui o samba carioca como a música que representaria essa unidade no País", diz Tadeu.

Não deixe o samba morrer

Desde Pelo Telefone, há exatos 100 anos, o samba passou por muitas mudanças. E isso fez do ritmo o mais tocado no país.

É muito difícil falar quando uma manifestação cultural como essa nasceu. Fácil, segundo o escritor Ricardo Cravo Albin, é colocar o gênero musical como o mais brasileiro de todos.

"O samba é o gênero nacional da música no Brasil. É com muito que a gente pode saber e dever escrever o samba como nosso gênero nacional", diz

Do terreiro de Tia Ciata ao espetáculo dos sambódromos, o samba passou por diversos ritmos e sotaques.

Com a bossa nova, conquistou o mundo, mas nunca deixou de morar no coração de seus amantes, como Osvaldinho da Cuíca.

"A minha preferência fica com aquela música do João da Baiana, que acho uma das melhores gravações de Martinho da Vila: 'ô, patrão, ô, patrão...":