Gabriel O Pensador volta a “matar” o presidente do Brasil; veja críticas da música a Temer

  • Por Jovem Pan
  • 21/10/2017 12h47
Reprodução e EFENa música, a cabeça decapitada de Temer vira bola de futebol

No começo da carreira, em 1992, o rapper Gabriel O Pensador ficou famoso ao lançar a música “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, em que narrava uma história ficcional na qual ele mesmo assassinava o então chefe do Executivo, Fernando Collor de Mello. Vinte dias após a canção que lançou O Pensador no cenário nacional e chegou a ser censurada, Collor foi forçado a deixar o governo em meio a um processo de impeachment.

Vinte e cinco anos depois, Gabriel O Pensador volta a se alegrar porque “matou” o presidente do Brasil. Na nova música lançada na quinta (19), “Tô Feliz (Matei o Presidente) 2”, o autor decapita Michel Temer e cita alguns dos escândalos do governo do peemedebista (veja as referências mais abaixo). O vídeo já tinha mais de 400 mil visualizações na tarde deste sábado.

Ouça e compare as duas músicas:

Atual:

De 1992:

Semelhanças e diferenças

As músicas possuem diversas semelhanças. Além do refrão idêntico que dá nome à canção, nas duas histórias, a cabeça do chefe do Planalto se torna bola de futebol para a alegria geral durante o enterro.

Em uma diferença, no entanto, Gabriel O Pensador diz na última estrofe da música mais atual que é contra a violência e nem matou nem vai “matar literalmente um presidente”, completando com uma crítica social estendida às consequências sociais da corrupção.

Outra diferença é que na canção de 1992 a polícia persegue o personagem que assassinou o presidente do Brasil. Já na versão de 2017, “a polícia ofereceu apoio para a missão” porque “policial também é povo”.

Outro contraste que não fica muito claro é o modo da “morte” do presidente. Collor, na história, é assassinado por um tiro de “três oitão” (arma calibre 3.8). Já Temer parece ser “decapitado”, mas Pensador também diz: “fácil, um tiro só, bem no olho do safado”.

Na música mais recente, o aclamado assassino (em ambas o autor é exaltado pelo povo após matar o presidente) não se restringe apenas a Temer, mas mata também deputados com flechas indígenas envenenadas depois de “invadir” a Câmara.

“Já tão todos de terno, e pro enterro vai facilitar”, diz a letra mais recente. A canção contra Collor também fazia referência à roupa do ex-presidente e atual senador no caixão: “Bonita camisa Fernadinho! Você nessa roupa de madeira tá bonitinho”.

Referências

Confira algumas das referências e críticas d’O Pensador na letra de “Tô Feliz (Matei o Presidente) 2” (confira a letra completa mais abaixo). Elas abrangem, além de Temer, o cenário político atual:

“Em nome da Amazônia desmatada/ Leva um arco e muitas flechas e finca uma no coração de cada”

A política agrária de Michel Temer é muito criticada por ambientalistas e defensores dos povos indígenas. Decreto presidencial recente visava a permitir a exploração mineral de empresas estrangeiras em áreas antes protegidas.

Temer decide revogar decreto que extinguia Renca

MPF: Governo Temer não demarca, não reconhece e não protege terras indígenas

“Envia pro capeta com as maletas de dinheiro sujo”

Como a letra neste trecho trata de deputados, provavelmente é uma alusão ao ex-deputado e assessor de Michel Temer Rodrigo da Rocha Loures (PMDB), flagrado em ação controlada da Polícia Federal recebendo mala com R$ 500 mil de diretor da JBS.

Resultado de imagem para rocha loures mala

Assessor de Temer Rodrigo Rocha Loures (PMDB) sai às pressas de pizzaria com mala com R$ 500 mil em dinheiro de pizzaria de São Paulo

O primo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Frederico Pacheco, o “Fred”, também foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil de Ricardo Saud, da JBS e J&F.

Resultado de imagem para primo de aécio fred mala

Os flagrantes constam na delação da JBS, que abalou o governo Temer no começo do ano e ensejou uma denúncia de corrupção passiva contra o presidente, engavetada pela Câmara.

“Áudio e vídeo divulgados, crime escancarado/ Mas nem é julgado/ Já tinha comprado vários deputados/ Fora o foro privilegiado”

Mais uma referência à delação da JBS, desta vez mais explícita. Michel Temer teve conversa gravada no porão do Palácio do Jaburu com o empresário Joesley Batista na qual este relatava compra de juízes e procuradores, entre outros crimes, para a impassividade de Temer.

Joesley também falou sobre uma “ajuda” a Eduardo Cunha, aliado de Temer e preso em Curitiba pela Lava Jato. “Tem que manter isso, viu”, respondeu o presidente.

O empresário, na conversa gravada, também pede um interlocutor com o governo e Temer sugere “Rodrigo” (Rocha Loures), “homem da minha mais estrita confiança”. Poucos dias depois, Loures foi gravado recebendo a mala de dinheiro da JBS.

Na Letra, Pensador também critica que Temer “nem é julgado”, uma vez que a Câmara rejeitou a admissibilidade da denúncia por corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral após o escândalo. O presidente foi acusado também de “comprar” votos ao liberar verba bilionária de emendas parlamentares nos dias anteriores à votação na Câmara.

EFE/Joédson Alves

Protesto em Brasília (EFE/Joédson Alves)

“Chamando políticos ridículos de Mito/ E às vezes nem acredito num futuro mais bonito”

Na estrofe final da música, na qual faz uma crítica social e deixa a história ficcional de assassinato de Temer, Gabriel O Pensador faz referência indireta a Jair Bolsonaro (PSC), deputado federal e pré-candidato à Presidência da República, polêmico por suas opiniões controversas e postura rixosa, aclamado por seguidores como “Bolsomito”.

Veja a letra completa

Todo mundo bateu palma quando o copo caiu
Eu acabava de matar o presidente do Brasil

[Verso 1]
A criminalidade toma conta da minha mente
Achei que não teria que fazê-lo novamente
Mas tenho pesadelos recorrentes, o Temer na minha frente
E eu cantando “Tô feliz, matei o presidente”
Fantasmas do passado, dos meus tempos de assassino
Quando eu matei o outro, eu era apenas um menino
Agora, palestrante, autor de livro infantil
Não fica bem matar o presidente do Brasil
Mas a vontade é grande, tá difícil segurar
Já sei, vamo pra DP, vou me entregar
Chama o delegado, por favor
Sou Gabriel O Pensador
O homem que eles amam odiar
Cantei “FDP”, “Pega Ladrão”, “Nunca Serão”
Agora “Chega”! “Até Quando” a gente vai ter que apanhar?
Porrada da esquerda e da direita
Derrubaram algumas peças, mas a mesa tá difícil de virar
Anota o meu depoimento e me prende aqui dentro
Que eu não quero ir pra Brasília dar um tiro no Michel
“Aí, que maravilha! Mata mesmo esse vampiro
Mas um tiro é muito pouco, Gabriel
Mata e canta assim:”

Hoje eu tô feliz, hoje eu tô feliz
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Matei o presidente, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, hoje eu tô feliz
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Matei o presidente, matei o presidente

[Verso 2]
Fiquei até surpreso quando correu a notícia
E a polícia ofereceu apoio pra minha missão
“Ninguém vai te prender, policial também é povo
Já matamo presidente, irmão, vai lá e faz de novo”
Que é isso?! Eu sou da paz, detesto arma de fogo
Deve ter outro jeito de o Brasil virar o jogo
“Que nada, Pensador! Vai lá e não deixa ninguém vivo
Se é contra arma de fogo, vai no estilo dos nativos
Invade a Câmara e pega os sacanas distraídos
Com veneno na zarabatana, bem no pé do ouvido
Em nome da Amazônia desmatada
Leva um arco e muitas flechas e finca uma no coração de cada
Cambada de demônio; demorou, manda pro inferno
Já tão todos de terno, e pro enterro vai facilitar
Envia pro capeta com as maletas de dinheiro sujo
De sangue de tantos brasileiros e vamos cantar”

Hoje eu tô feliz, hoje eu tô feliz
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Matei o presidente, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, hoje eu tô feliz
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Matei o presidente, matei o presidente

[Verso 3]
Áudio e vídeo divulgados, crime escancarado
Mas nem é julgado
Já tinha comprado vários deputados
Fora o foro privilegiado
Então mata o desgraçado
Na comemoração tem a decapitação
Cabeça vira bola e a pelada vai rolar (Chuta!)
Corta a cabeça dele sem perdão
Que essa cabeça rolando vale mais do que o Neymar
(É Pensador, é Pensador, é Gabriel O Pensador
É Pensador, é Pensador, é Gabriel O Pensador…)
Fácil, um tiro só, bem no olho do safado
E não me arrependo nem um pouco do que eu fiz
Tomei uma providência que me fez muito feliz

Hoje eu tô feliz, hoje eu tô feliz
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Hoje eu tô feliz, matei o presidente
Matei o presidente, matei o presidente

[Verso 4]
Matei o presidente
(Matei o presidente, matei o presidente, matei o presidente)
Eu não matei nem vou matar literalmente um presidente
Mas se todos corruptos morressem de repente
Ia ser tudo diferente, ia sobrar tanto dinheiro
Que andaríamos nas ruas sem temer o tempo inteiro
Seu pai não ia ser assaltado, seu filho não ia virar ladrão
Sua mãe não ia morrer na fila do hospital
E seu primo não ia se matar no Natal
Seu professor não ia lecionar sem esperança
Você não ia querer fazer uma mudança de país?
Sua filha ia poder brincar com outras crianças
E ninguém teria que matar ninguém pra ser feliz
Hoje, estar feliz é uma ilusão
E é o povo desunido que se mata por partido
Sem razão e sem noção
Chamando políticos ridículos de Mito
E às vezes nem acredito num futuro mais bonito
Quando o grito é sufocado pelo crime organizado instituído
Que censura, tortura e fatura em cima da desgraça
Mas, no fundo, ainda creio no poder da massa
Nossa voz tomando as praças, encurtando as diferenças
Recompondo essa bagaça, quero é recompensa
O Pensador é contra violência
Mas aqui a gente peca por excesso de paciência
Com o “rouba, mas faz” dos verdadeiros marginais
São chamados de Doutor e Vossa Excelência