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Olinda, “de gente, história e mar comoventes”

  • Por Jovem Pan
  • 02/08/2016 09h48
Divulgação/FacebookDivulgação/FacebookOlinda - Pernambuco - DIV

Por Fernando Portela, escritor*

A luz.
Ah, esta luz de Olinda, a minha Olinda. E pensar que há décadas eu abandonei esta luz e as cores da sua consequência para a aventura paulistana… Em todos esses anos, uma pergunta feita por tios, primos, e agora sobrinhos, vem me trazer um daqueles desconfortos filosóficos de que a gente foge a vida inteira: “Mas por que diabos você saiu daqui?”
Respondam, meus botões: por que, mesmo? Como é possível descartar, conscientemente, essa visão enternecida, transcendental, de mangueiras, coqueiros, telhados seculares e o mar-lá-longe, a partir da colina onde se erguem a igreja de Santa Gertrudes e a escola do mesmo nome (a “academia”)? Como foi possível abandonar essa paisagem muito mais adequada ao êxtase dos santos, à glória dos eleitos? Uma paisagem de tal encantamento que, em geral, um suspiro do visitante a descreve melhor do que estas palavras, do que mil palavras, ou fotos (é verdade: há gente que tenta filmar isto) – seria mesmo muita pretensão da tecnologia querer captar essa luz encantada que pode levar a um delírio místico.

Cuidado, sensitivos, cuidado com Olinda. Não é uma cidade nem um estado de espírito. É simplesmente um dos Portais Angélicos, um daqueles points do nosso devassado Planeta que os Mensageiros Alados (eles próprios energias luminosas, sutis), escolheram como porto por estarem mais próximos da sua divina natureza. (Há outras dessas estações no mundo, como Assis, na Itália; Toledo, na Espanha. São poucas.)

Mas, meu senhor, minha senhora, meu jovem: tenham cuidado com Olinda. Contenham seus sentimentos. Nada de choros, se bem que a gente entende que a História e aquele mar são comoventes. É claro que suas almas delicadas não vão escapar da sedução de sacadas e balcões dos sobrados do século XVI, marcos das desigualdades sociais que tanto macularam essa primeira capital da Capitania, desde sua fundação portuguesa, em 1535. Radicalmente nobre, a cidade se especializou, desde sempre, em charme, exuberância e ostentação, como a mania de se usar puxadores de ouro e dobradiças de prata nas portas das casas da época. Cidade que, nos seus anos de glória, costumava chamar de “povo”, com total naturalidade, o lugarejo à beira do porto que se transformaria na burguesa Recife. Diziam os olindenses, com simpática tolerância: “Vamos dar uma volta no “povo”? Hoje, essa nobreza se manifesta de outras formas. A população de Olinda, por força da herança majestosa, trata o visitante com uma hospitalidade que somente dono de palácio pode se dar ao luxo. São 350 mil a nos tratar com uma alegria, uma jovialidade que podem mesmo parecer sem motivo, sobretudo para quem vem do estresse. A simpatia surge dos lendários meninos que sabem de cor a História da cidade, com detalhes de cada rua e prédio, à pessoa qualquer a quem você peça informação. Se for perto do Carnaval, como agora, essa disposição aumenta.

O Carnaval é uma loucura em Olinda – na inteira acepção da palavra. Um milhão, setecentas mil, quinhentas, sei lá, um monte de gente sobe e desce as ladeiras, a pular e a gritar, embalado pelo frevo tocado ao vivo (frevo, música delirante, obsessiva, espécie de desabafo das bandas marciais). E o olindense não admite carros de som. Ameaça depredá-los, até, quando insistem. Há uma explosão de criatividade nas fantasias, quase sempre críticas e bem-humoradas, exibindo das piadas escrachadas às reflexivas. Pequenos blocos são criados a qualquer pretexto, como o “Bloco da Porta”, que há anos desfila pelo Carnaval olindense e nasceu do esforço de um free-lancer desempregado que decidiu trabalhar no carnaval. Estava carregando uma porta para consertar quando notou que uma pequena multidão o seguia, dançando. Lógico, ele aderiu. Pode-se dizer mesmo que o Carnaval é o momento mais democrático da cidade. Dançam, juntos, o rico, o pobre, o classe média. Fazem rodas e dão-se as mãos. Ficam todos iguais: todos nobres.

A nobreza é atávica. Porque todo mundo mora em um palácio. Não adianta a afirmação dos famosos pintores João Câmara e Delano, amigos de décadas, vizinhos da rua de São Francisco, ocupando, cada um, seu casarão histórico. Eles dizem, quase em côro, que não foi a energia de Olinda que atraiu os artistas à cidade. (Como se sabe, Olinda possui a maior concentração brasileira de artista por metro quadrado.) Os artistas teriam vindo, na década de 60, por causa das melhores condições ecônomico-financeiras oferecidas. Muito espaço nos quintais, casas tão grandes como baratas. Aí foi juntando artista. Na década seguinte, artista morar em Olinda já tinha virado moda. Depois vieram os de outros estados. Mais uma década e estrangeiros também aportaram no Montparnasse tropical. Não adianta esse tipo de explicação. Deixe-se ao Recife a racionalidade. Aqueles dois vieram para cá atraídos pelo sortilégio maior que toca os escolhidos, os talentosos. E os resgata para os Campos do Senhor. Olinda é isto: magia e emoção – cândida, genuína. Hoje, Delano* e João Câmara não teriam outro lugar para viver. “É, a gente já acostumou…”- diz Câmara, deitado numa rede, saboreando um suco de manga do seu quintal ao lado da mulher, Maria Adelaide. “Aqui é provinciano, calmo, eu saio na rua de bermuda e sandália japonesa”, completa o outro artista, incomodado por considerar, mesmo teoricamente, a idéia de sair da cidade.

Mas você vai entender melhor tudo isso quando assimilar o vermelho-vivo da casa que – dizem – foi de Maurício de Nassau, o holandês, o “recifense” que quase destruiu Olinda, na invasão de 1630. Não deixe de observar bem o caimento oriental de alguns telhados, o piso de época, o Mosteiro de São Bento, os museus de Arte Sacra e de Arte Contemporânea, a Igreja do Carmo e a imponente Catedral da Sé. São 22 igrejas e 11 capelas. Se quiser uma lembrança, tudo bem, entre no Mercado da Ribeira e compre o artesanato muito simples – simples demais, você pode achar, antigamente era mais caprichado – produzido por mais dos 100 artistas populares que invadem a cidade; além deles há cerca de 5O pintores, dos quais boa parte é conhecida nacional e internacionalmente. Se quiser comprar um dos seus quadros, basta perguntar onde moram, bater palmas na porta e entrar. Quando você tiver fome, a oferta é imensa, de pequenos restaurantes de comida caseira-típica. Se fosse você, experimentaria o Oficina do Sabor, número 335 da rua do Amparo. Saiu até no New York Times. Peça a “Charque à moda do chefe”, que vale a pena. No mais, pensando bem, foi temeridade minha escrever tanto sobre esta cidade. Sinto-me diante daquelas pessoas que, quando descobrem que nasci em Olinda, fazem a analogia automática: “Olinda: como Ouro Preto, não é?” “Mais ou menos”, respondo, consciente da impossibilidade de descrever minha cidade. “Ouro Preto… com mar.”

Digo mar como se a palavra tivesse muitas sílabas. De certa maneira tem: ou seria um simples mar a luz coagulada à minha frente, que se faz verde, transmudando-se em azul profundo à altura dos arrecifes (olhe, surgiu uma vela branca, ao sul), onde não são raras as ocorrências em violeta? É mar, apenas, ou puro devaneio dos sentidos, aquilo que surge por trás das árvores e das duas torres da Igreja do Carmo? Se fosse somente mar, e nada mais do que mar, daria vontade de chorar, ao contemplá-lo?

*Autor de 47 livros, Fernando Portela nasceu em Olinda, município de Pernambuco. Estreou na imprensa como contista e poeta no suplemento literário do Jornal do Commercio, do Recife, no início dos anos 60. Aos 15 anos, entrou numa redação de jornal pela primeira vez, como estagiário do Diário da Noite, do Recife; aos 20 anos, foi redator na sucursal nordestina da então Norton Publicidade. Trabalhou para inúmeras publicações nacionais, como a revista Realidade, que marcou época, e fez carreira no Jornal da Tarde, do Grupo Estado, do qual foi um dos fundadores.

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*Nota do Autor: o texto foi escrito há alguns anos e Delano faleceu.