Muricy Ramalho, 61, não quer mais saber de prancheta, campo e bola. E nem cogita mais ocupar salas diretivas de clubes de futebol. Se depender vontade dele, a relação com o esporte mais popular do planeta só continua assim, sem o envolvimento de outrora. 

Comentarista esportivo desde novembro de 2016, o ex-técnico está feliz da vida. Como analista especial dos canais SporTV, Muricy convive com menos pressão, tem mais tempo para ficar com a família e – o principal – pode cuidar da saúde. 

"Estou gostando. É uma coisa diferente. Não sou jornalista, mas, de vez em quando, dou uns palpites sobre o trabalho dos treinadores. Estou feliz. É legal, dá menos estresse", resumiu o tetracampeão brasileiro, em entrevista exclusiva a Nilson Cesar que vai ao ar no próximo fim de semana, na Rádio Jovem Pan. 

A satisfação é tão grande que um possível retorno ao futebol – antes até imaginado – hoje está fora dos planos. "Eu não quero voltar. Já me convidaram... Mas eu não quero voltar. Estou feliz com o que estou fazendo agora. Estou convivendo com a minha família, coisa que eu nunca fiz... Então, não vou voltar, não. É definitivo".

Muricy também falou sobre Rogério Ceni, analisou a dicotomia entre "técnicos estudiosos" e "técnicos medalhões" e disparou contra o que se convencionou chamar de "futebol moderno". 

Confira abaixo! 

Como está o seu trabalho como comentarista esportivo? 

"Estou gostando. É uma coisa diferente. Não sou jornalista, mas, de vez em quando, dou uns palpites sobre o trabalho dos treinadores. Estou feliz. Está legal, dá menos estresse. É muito bom". 

Há alguma chance de você voltar a trabalhar dentro do futebol? 

"O meu filho é são-paulino... Às vezes, ele vai ao Morumbi e me convida. Mas eu falo: 'eu não quero nem ir, porque vou lá e os caras começam a falar que eu quero voltar'. Eu não quero voltar. Já me convidaram... Mas eu não quero voltar. Estou feliz com o que estou fazendo agora. Estou convivendo com a minha família, coisa que eu nunca fiz... Então, não vou voltar, não. É definitivo". 

O que você achou da opção do Rogério Ceni? De ser técnico um ano depois de se aposentar? 

"Cada um faz as suas escolhas... O Rogério escolheu essa maneira mais direta, de pular da carreira de ex-jogador para a de técnico. Eu, por exemplo, escolhi começar na base, fui auxiliar do Telê, do Parreira... Foi o meu plano. Eu acho que o Rogério sabe da cobrança que é ser técnico. É um caminho duro, porque ele vai ter de aprender com os jogos, já que não teve uma escola... Mas o Rogério é um cara inteligente. Sabe do que vai acontecer pela frente. Ele vai aprendendo com as derrotas... Vai sofrer um pouquinho, porque está apenas começando, mas é o tempo que vai dizer".

Você vê o Rogério como um bom gestor de pessoas? 

"Eu o vejo como um grande líder. É difícil falar, porque eu não o conheço como técnico, e sim como jogador e pessoa... Mas, com certeza, ele sabe da importância de se fazer uma boa gestão de jogadores. É um cara muito inteligente". 

Como você analisa essa dicotomia entre "técnicos medalhões" "técnicos estudiosos"? 

"As pessoas não podem achar que os estudos de futebol começaram agora... Não! A gente também estudava lá atrás. Eu também fiz vários cursos, participei de palestras internacionais. Então, o estudo não é de agora. É que, depois do 7 a 1, começaram a falar que o grande negócio é estudar. Estudar faz parte, é obrigação de qualquer técnico. Agora, a prática é totalmente diferente. O cara tem de aplicar esse estudo na prática, e, quando a bola rola, é muito diferente de quando você fala. Um time de futebol não é só escalar, treinar... Isso é o mais fácil. O problema é o dia-a-dia. Há muita pressão, muitos interesses. Então, eu não vejo muito sentido em separar os técnicos entre 'os de antigamente' e 'os de agora'. É muito parecido. No fim, o que vai valer é o resultado". 

O que você pensa sobre o tal "futebol moderno", em que os volantes também atacam, e os atacantes também marcam? 

"Isso é uma grande bobagem. Em 1982, jogavam Falcão e Cerezo, dois caras que não marcavam ninguém, só jogavam, e jogavam bonito. O que acontece é que hoje, depois do 7 a 1, vem esse papo de que o volante moderno é o que joga... O futebol, na verdade, não mudou tanta coisa. O que mudou no futebol, realmente, foi a intensidade e a quilometragem. Hoje, os caras correm 13km, 14km por jogo, enquanto, antes, corriam 5km, 6km. A parte física hoje é mais importante. Só isso".