Quase sete meses se passaram dos Jogos do Rio 2016, e o “frisson” gerado pelo evento acabou. Se em agosto todos os brasileiros se mostravam entendidos de canoagem, boxe, judô, esgrima, levantamento de peso, entre outras modalidades, atualmente poucos saberiam dizer o que é ippon ou um duplo twist carpado. A televisão voltou a exibir 99% do futebol em sua programação, enquanto os chamados “esportes olímpicos” ficaram à míngua.

Para piorar, Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), que está há 22 anos no poder, declarou que o esporte do País retrocedeu aos anos 90. Além disso, o ministro do Esporte, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), suspendeu o edital que previa o aporte federal de R$ 150 milhões em modalidades olímpicas.

A pasta também sofreu uma redução no orçamento do governo federal, passando de R$ 1,72 bilhões em 2016 para R$ 976 milhões neste ano. Já a Lei Agnelo/Piva prevê que 1,7% do montante arrecado com as loterias federais seja repassado ao COB, entretanto com a queda nas receitas em 2017 esse valor será de R$ 85 milhões contra os R$ 98 milhões de 2016. A quantia será aplicada nos programas das 29 Confederações Olímpicas, com exceção do futebol.

Os atletas, estrelas do espetáculo, também estão esquecidos e muitos sofrem com a falta de patrocínios. Fernando Reis não conquistou medalhas no Rio. O atleta do levantamento de peso terminou a competição com o 5º lugar, o melhor resultado de um sul-americano em Olimpíadas, mas perdeu o apoio. Atleta do clube Pinheiros, Reis contava com os subsídios da Petrobras e a Bolsa Pódio, no valor de R$ 12 mil. O corte no seu orçamento pós Rio 2016 chega a ser entre 50 a 60%.  

“É uma situação complicada, mas eu já sabia que ia acontecer. A única coisa que me deixa chateado é que somente os benefícios dos atletas são cortados, enquanto vemos dirigentes viajando de primeira classe e se hospedando em hotéis cinco estrelas. Eles esbanjam com o dinheiro público”, critica Reis, em entrevista exclusiva à Jovem Pan Online.

Não à toa teve que se mudar temporariamente para Miami, nos Estados Unidos, onde há um mês tem se preparado para o Pan-Americano, em julho e para o Mundial da categoria, em outubro. “Continuo seguindo o treinamento do cubano Luis Lopez, que é meu técnico no Esporte Clube Pinheiros. Mas não tenho uma equipe multidisciplinar ao meu lado”, diz.

Proprietário da academia CTF Reis, o atleta revela que até chegou a receber alguns parceiros de seleção no período pré-olímpico. “Há seis meses dos Jogos, eu tinha a Seleção Brasileira inteira treinando na minha academia, sendo que não recebo subsídios do governo para mantê-la. Realmente, ser atleta é muito difícil. A gente tem que se reinventar para brigar com os melhores do mundo”, admite.

Reis revela ainda que o Brasil não se preparou para os Jogos Olímpicos Rio 2016. “Eu posso falar de mim, do meu técnico e do Pinheiros. Desde 2011, nós treinávamos como loucos para chegar bem. Mas se dependesse da ‘boa vontade’ da Confederação a gente não teria feito resultado nenhum. Não existe preparação apenas três meses antes da competição”, destaca Fernando Reis.

Prata solitária

Já Felipe Wu, do tiro esportivo, foi o primeiro medalhista do País, nos Jogos. Aqueles precisos 10.1 pontos na pistola de ar transformaram o Complexo de Deodoro num verdadeiro Maracanã. Pois, além da medalha, nascia ali a esperança de um futuro mais promissor ao esporte.

Não foi o que aconteceu. Se antes, Wu tinha conquistado o status de herói e ouvido inúmeras promessas de que as federações, o poder público e a iniciativa privada dariam mais atenção ao tiro-esportivo, hoje o cenário é outro. O jovem paulistano perdeu seu técnico Bernardo Tobar, que por conta da falta de verbas da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), precisou fazer as malas e voltar para a Colômbia, sua terra natal.

“Eu acho que sou um dos poucos atletas que não perdeu patrocínio após a Olimpíada. Mas perdi a estrutura que era oferecida pela Confederação, inclusive o Bernardo, que estava comigo desde antes dos Jogos”, destaca Wu.

O atleta conversou com a Jovem Pan Online e revela que treina sozinho no clube Hebraica, em São Paulo, que lhe oferece apenas o espaço e sem qualquer tipo de remuneração. “A medalha olímpica é o sonho de qualquer atleta, e eu fico muito feliz por ter realizado esse sonho. Óbvio que eu imaginava que a estrutura que eu tinha pelo menos fosse se manter, o que não aconteceu”, afirma.

Quando indagado sobre a queda no repasse da Lei Agnelo/Piva, o medalhista ressalta que os efeitos já podem ser sentidos. “Isso afeta bastante a nossa Confederação. Não temos muitos patrocínios e todo o dinheiro vem dessa verba. Não temos técnico e não estamos disputando competições no exterior por conta disso. Mas essa ressaca já era esperada”, admite o atleta, que completa:

“Desenvolvemos um trabalho para o Rio que não queremos perder. A cada treino sem técnico, nutricionista e psicólogo nós perdemos um pouquinho do alto nível. No ano que vem começam as seletivas para Tóquio, então o quanto antes a gente voltar com essa estrutura será melhor”.

Em Santarém, no Pará, para a inauguração do Clube de Tiro Tapajós, o atleta revela que em maio pretende disputar a etapa da Copa do Mundo de Tiro-Esportivo, na Alemanha.