Compra de votos em eleição do Rio para Olimpíada de 2016 entra no radar do FBI

  • Por Estadão Conteúdo
  • 08/10/2017 19h14
Julio Cesar Guimarães / EFECarlos Arthur Nuzman caminha ao lado de agentes da Polícia FederalNuzman foi preso pela Polícia Federal no Rio de Janeiro na última quinta-feira (5)

A suposta compra de votos para o Rio de Janeiro ser eleita a sede da Olimpíada de 2016 está no radar do FBI, que levanta informações sobre uma eventual participação do sistema financeiro norte-americano nas transações identificadas de pagamentos de propinas e na participação de outros membros do Comitê Olímpico Internacional. O escândalo de corrupção envolvendo o movimento olímpico ainda levou membros do COI a falar abertamente neste final de semana sobre o fato de que “novas revelações” serão feitas em breve sobre a dimensão do escândalo.

Na última sexta-feira, o COI tomou uma decisão inédita de suspender o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e de afastar o brasileiro Carlos Arthur Nuzman dos cargos internacionais. O anúncio ocorreu um dia depois da prisão do dirigente, no Rio de Janeiro, suspeito de compra de votos para garantir à capital carioca a sede do evento de 2016.

Porém, segundo apurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, o trabalho de investigação sobre a compra de votos não está limitado ao Brasil e à França, país que deu início ao inquérito. Já no ano passado, encontros foram realizados nos Estados Unidos entre membros do FBI, de agências norte-americanas de inteligência e procuradores estrangeiros.

Pessoas que estiveram no encontro indicaram que ficaram surpreendidas com os detalhes que o FBI já possuía sobre os bastidores do COI. Procurados, representantes da agência norte-americana indicaram que a política da entidade é de não se pronunciar sobre inquéritos em andamento.

O FBI, que liderou um duro golpe contra a corrupção na Fifa em 2015, estaria interessado nos negócios do movimento olímpico, ainda que por enquanto nenhum processo criminal tenham sido aberto.

A agência norte-americana ainda atua para tentar identificar o paradeiro do empresário brasileiro Arthur Soares, conhecido como “Rei Arthur”. Ele tem a sua prisão decretada no Brasil, mas está foragido. Uma das hipóteses é de que ele teria fugido em um iate, a partir de Miami. Uma de suas empresas, a Matlock Capital Group, teria sido responsável por transferir US$ 2 milhões para membros do COI. A pedido do Brasil e da França, a Justiça norte-americana passou a buscar o suspeito. Procuradores brasileiros indicaram que ele voou de Lisboa para Pittsburgh no dia 24 de agosto e que poderia estar em Miami.

NOVAS REVELAÇÕES – Neste final de semana, membros do COI abandonaram o silêncio e, com a suspensão de Carlos Arthur Nuzman efetuada, usaram as redes sociais para defender o afastamento do brasileiro, presidente do COB e do Comitê Organizador do Rio-2016.

Em uma delas, Richard Peterkin, tesoureiro da Organização Pan-Americana de Esportes (ODEPA), alertou que “novas revelações” estariam para serem realizadas. Ele teme que uma crise da dimensão da que a Fifa foi jogada poderia também afetar o COI. “A decisão do COI tinha de ser tomada. Havia evidências demais, algumas das quais auto-incriminatórias”, escreveu. “O dano para a reputação do movimento olímpico é enorme e novas revelações estão para ser realizadas”, alertou. “Temos de secar o lodaçal”, insistiu.

O início do envolvimento do FBI, em 2016, coincide com uma declaração que, na época, chamou a atenção. Há um ano, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sugeriu que a escolha das sedes dos Jogos Olímpicos era manipulada. Em uma entrevista publicada na New York Magazine, ele não deixou dúvidas sobre o que pensa do COI e mesmo da Fifa. Seu ataque visa especificamente a escolha da sede de 2016, que acabou ficando com o Rio de Janeiro.

Barack Obama foi um dos promotores da candidatura de Chicago, seu berço político e a cidade de sua mulher, Michelle. Em 2009, o COI escolheria quem ficaria com o direito de sediar os Jogos de 2016 e uma reunião em Copenhague, na Dinamarca, levou ao pequeno país europeu o rei da Espanha, Juan Carlos, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, cada um servindo de cabo eleitoral para suas cidades.

Segundo Barack Obama, um “comitê muito eficiente foi para Copenhague para fazer sua apresentação”. “Michelle tinha ido com eles e eu recebi uma chamada, acho que antes das coisas terem terminado, indicando que todos pensavam que se eu fosse lá, teríamos uma boa chance de conseguir e que valeria a pena essencialmente fazer um dia de viagem até la”, contou o presidente. “Assim, decidimos viajar”, completou.

“Subsequentemente, acho que fomos informados de que as decisões do COI são similares às da Fifa: um pouco arranjadas”, disse Barack Obama. “Não passamos da primeira fase, apesar de que, por todos os critérios objetivos, a candidatura americana era a melhor”, afirmou. Obama conta que, já no voo de volta para Washington, a sua delegação sabia que Chicago não tinha vencido.