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As múltiplas faces do trabalho escravo, realidade que ainda aflige mais de 20 milhões de pessoas

  • Por Jovem Pan
  • 07/05/2017 16h34
Marcello Casal Jr / Agência BrasilMarcello Casal Jr / Agência BrasilTrabalho Escravo

A ideia de instituir uma data para celebrar o trabalhador não surgiu do nada. Neste mesmo dia, em 1886, uma greve geral paralisou o parque industrial de Chicago por melhores condições de trabalho, redução de jornada e salários mais justos. As reivindicações, feitas 131 anos atrás, infelizmente continuam recentes: quase 21 milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado. Destas, 11,4 milhões são mulheres e meninas e 9,5 milhões são homens e meninos.

Durante a semana na qual é celebrado o Dia do Trabalhador, a Jovem Pan buscou entender como funciona o trabalho escravo moderno. Acompanhe nas reportagens a seguir, com produção de Nanny Cox, Marcella Lourenzetto e Natacha Mazzaro e sonoplastia de André Luis e Leonardo Pinheiro.

Capítulo 1: Trabalho escravo moderno: ouça AQUI.

As condições são bem parecidas com o que os livros de história chamam de “trabalho escravo”, mas o afastamento do termo acontece por especificidades. Apesar da situação degradante, a pessoa não é reduzida à coisa. A outra explicação é que ao pé da letra, o capitalismo é caracterizado pelo trabalho livre.

Capítulo 2: trabalho escravo na agricultura. Ouça AQUI.

O campo é um dos setores que mais recruta pessoas para trabalhar em condições análogas às de escravo. De acordo com dados do Senado Federal, a mão de obra forçada produz principalmente leite e carne. Em 1995, o Brasil reconheceu que este tipo de trabalho ainda existia e se comprometeu a erradicá-lo. Naquela época, os empregadores rurais mantinham uma caderneta de débito na qual todos os custos com o trabalhador eram anotados: alimentação, moradia e transporte. A quantia mantia a pessoa vinculada ao patrão e à terra, com uma “dívida” que só crescia.

Capítulo 3: trabalho escravo na moda. Ouça AQUI.

O Brasil é o último país que possui cadeia têxtil completa no Ocidente, ou seja, é o único capaz de plantar o algodão e desfilar a roupa pronta na passarela. Cerca de 22 mil empresas produzem vestuário, fazendo da cadeia nacional uma das mais complexas do mundo. Juntas, as micro, pequenas e média empresas empregam quase 1 milhão de pessoas. No entanto, esses são os apenas os dados formais.

Assim como a agricultura, a indústria têxtil tem alta incidência de trabalhadores em condições de escravidão. A indútria é muito fragmentada e as empresas hoje em dia são administradoras de marca, e não produtoras de roupa. A produção é terceirizada, normalmente com empresas homologadas pela ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil). No entanto, “as vezes os volumes comprados acabam sendo superiores aos volumes que essas empresas têm condições de assumir”, explica a coordenadora do curso de Fashion Business do IED, Maria José Orione. Para não perder o pedido, chegam até a quarteirizar a produção para outra empresa “essa não homologada, sem o conhecimento do comprador original, e é normalmente aí que ocorrem esses problemas de mão de obra irregular”, completa a professora.

Capítulo 4: Trabalho infantil. Ouça AQUI.

Criança trabalha em fábrica de tijolos de Jalalabad, no Afeganistão (EFE)

Seja no campo, em uma fábrica, em casas de família ou atrás de uma máquina de costura, o trabalho escravo muitas vezes não é visível, no entanto está presente no cotidiano do brasileiro. E piora quando se coloca uma criança no papel do explorado. No Brasil, o trabalho infantil é considerado ilegal, mas muitas crianças trabalham e ainda passam por condições análogas à escravidão. Essa situação acontece quando o jovem é submetido a alguma forma de trabalho perigoso ou explorador, que prejudique a saúde, a educação ou o desenvolvimento.

Capítulo 5: Legislação sobre o trabalho escravo. Ouça AQUI.

Demorou, mas o Brasil finalmente reconheceu em 1995 a existência de trabalho escravo no país e se comprometeu a erradicá-lo. Uma das iniciativas foi a criação da chamada “Lista Suja”, uma publicação que divulga nomes de empresas autuadas pelo uso do trabalho análogo ao escravo, a partir da fiscalização do Ministério do Trabalho. A divulgação da lista que deveria ser anual, estava suspensa desde dezembro de 2014, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Desde então, novos capítulos judiciais impediram a publicação e, somente em abril deste ano, o Ministério do Trabalho voltou a divulgar a “lista suja”. Desta vez, bem mais enxuta do que as anteriores, com um total de 68 nomes.