Uma das figuras mais controversas da política brasileira vencia, há 30 anos, em novembro de 1985, a eleição para a prefeitura de São Paulo. Atrás nas pesquisas, Jânio Quadros, ex-presidente da República, deu a volta por cima e derrotou Fernando Henrique Cardoso, do PMDB.

A vitória do folclórico e polêmico candidato do PTB foi praticamente antecipada pelas enquentes da Jovem Pan. Com sonoplastia de Reginaldo Lopes, o repórter Thiago Uberreich resgata os momentos históricos da primeira eleição municipal depois da ditadura. Confira abaixo.

Jânio Quadros deixou a Prefeitura em 1989 e morreu em fevereiro de 1992, aos 75 anos. O trabalho da Jovem Pan nas prévias de 1985 é considerado histórico e já levantava dúvida em relação aos institutos de pesquisa.

Em 1985, 37% dos eleitores da cidade de São Paulo deram um voto de confiança para um dos nomes mais controversos da história política nacional. "Cansei de dizer a imprensa que nesta cidade eu sou imbatível", disse. Convencido e implacável com os adversários: "falsos, mentirosos, desonestos".

A eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1985, teve turno único no dia 15 de novembro. Jânio Quadros, da coligação PTB-PFL, venceu Fernando Henrique Cardoso do PMDB, que liderava as pesquisas.

A vassoura estava de volta: "o Jânio vai voltar com a vassoura/ Para acabar com a corrupção". 25 anos antes, um jingle parecido embalava o país: "Varre, varre,varre vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira!/ Que o povo já 'tá cansado/ De sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!".

Jânio da Silva Quadros chegava ao Palácio do Planalto, mas em 25 de agosto de 1961, tomou uma atitude intempestiva. "Atenção, atenção, ouvintes. O senhor Jânio Quadros acaba de renunciar a Presidência da República", dizia anúncio. (Abaixo, Jânio durante cerimônia de posse da Presidência).

Advogado e professor de escola, Jânio Quadros teve uma rápida ascensão política: foi vereador, prefeito e governador de São Paulo, ainda nos anos 1950.

"O jeito é Jânio, o jeito é Jânio, o jeito é Jânio. Varre, varre, vassourinha
Varre, varre a bandalheira/ O povo já está cansado de sofrer dessa maneira/ Jânio Quadros em São Paulo foi melhor governador", era o jingle do governo de Jânio.

Em 1982, depois de tentar se filiar ao PMDB, Jânio Quadros disputou o governo de São Paulo pelo PTB em meio a idas e vindas. "Eu não sou candidato a governador do Estado de São Paulo (...) Sou candidato a governador".

O ex-presidente perdeu a eleição estadual para o peemedebista Franco Montoro.

Em 1985, Jânio Quadros iria promover um embate ferrenho com um outro integrante do PMDB. "É pique, é pique, é pique. É hora, é hora, é hora. Fernando Henrique, tem que ser agora. (...) Disseram de mim e de minha famílias as coisas mais incríveis. Disseram, por exemplo, que eu fumo maconha, que eu poria maconha na merenda das crianças. Eu, que fui professor a vida toda, e que nem fumo", disse FHC.

Fernando Henrique Cardoso liderava as pesquisas para a Prefeitura e se defendia como podia dos ataques dos adversários. Jânio Quadros desdenhava o candidato do PMDB: "quem é o candidato do PMDB?"

Jânio Quadros, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy, do PT, monopolizavam as intenções de voto em um total de onze candidatos. Na campanha de 1985 o marketing político apareceu com força no horário eleitoral: "chegou a hora da honestidade. São Paulo precisa de proteção e muita segurança. Vassoura neles".

No dia 15 de novembro de 1985, os jornais chegavam às bancas com uma foto de Fernando Henrique Cardoso sentado na cadeira de prefeito. O candidato do PMDB estava à frente nas pesquisas, mas o microfone da Jovem Pan nas ruas de São Paulo começava a constatar um outro cenário.

"A prévia eleitoral da Jovem Pan, fala do distrito eleitoral da Pedreira, na zona eleitoral de Santo Amaro", relatava o repórter. "Vai votar em quem para prefeito? 'Jânio'", respondiam os eleitores.

As prévias desbancaram as pesquisas eleitorais. Jânio Quadros recebeu 37,6% dos votos, contra 34% de Fernando Henrique Cardoso. "O senhor já se considera eleito?", perguntava o repórter, ao que Jânio respondia: "nada a declarar".

Mas o novo prefeito, Jânio Quadros, tinha tudo a declarar nos microfones da Jovem Pan. "Eu quero agradecer a Jovem Pan a cobertura que deu nas prévias eleitorais. Demonstrando a mentira, o engodo dos famosos institutos de levantamento de opinião pública. Muito obrigado, senhores".

Jânio ganhou com um milhão e 542 mil votos, cerca de 140 mil a mais do que Fernando Henrique. Antes da posse em 1986, o prefeito viajou para o exterior com a esposa Eloá e na volta, estava com barba, mas sem bigode - uma homenagem a Abraham Lincoln.

"Foi promessa mesmo, presidente?", perguntava jornalista. "Para uma prefeitura barbada de problemas, eu achei que um prefeito barbuso seria o melhor", respondeu Jânio.

Quando foi presidente, Jânio Quadros proibiu as rinhas de galo e os biquinis nos desfiles de moda e condecorou Ernesto Che Guevara. O homem que ia aos botecos comer sanduíches de mortadela e jogava talco no paletó para parecer caspa também tomou medidas polêmicas na Prefeitura.

"O prefeito eleito Jânio Quadros, neste momento conforme havia prometido, desinfeta a poltrona que vai ocupar como prefeito da capital", dizia a reportagem. "Porque o senhor Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá", disse Jânio.

Jânio Quadros aumentou o valor das multas de trânsito - proibiu o skate nas ruas, pintou os ônibus da CMTC de vermelho e comprou veículos de 2 andares.

O prefeito gostava de dizer que o dinheiro do município estava muito bem guardado, apesar de ter deixado uma dívida milionária para Luiza Erundina: "temos o dinheiro, sim. Está muito bem escondidinho, mas temos"

Jânio Quadros era de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, mas nasceu no dia do aniversário de São Paulo, 25 de janeiro de 1917. Identificado com o bairro da Vila Maria, ele era antes de tudo enigmático.

"De fato, eu vou comprar um par de chuteiras com as cores corintianas e pendurar esse par de chuteiras na antessala do meu gabinete. Para deixar bem claro que este é meu último mandato", explicou.

*Reportagem de Thiago Uberreich

**Imagens: Folhapress