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Ciro diz receber Moro na bala! E Ferreira Gullar brega, mas chique

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 27/03/2017 08h48
Walter Craveiro / Divulgação FlipFerreira Gullar - Divulgação

Ai, ai…

Ciro Gomes, o cearense nascido por engano em Pindamonhangaba (SP), é mesmo como um peixe!

Aliás, posso começar este post com uma, digamos, metáfora virtuosa sobre o bichinho. Virtuosa e até amorosa. Um dos maiores sucessos de Fagner, filho ilustre do Ceará, é “Borbulhas de Amor”. Quem não conhece os versos mais bregas e chiques cantados em português?  Eis aqui: “Quem dera ser um peixe/ Para em teu límpido aquário mergulhar/ Fazer borbulhas de amor pra te encantar/ Passar a noite em claro/ Dentro de ti”.

Vá, leitor, mate a vontade:

“Brega e chique?” Já chego lá.

Peixe e peixeira
Bem, queridos. O peixe da música fazia borbulhas de amor à luz da lua. Ciro, não há como, parece ter a sina de morrer pela boca.

Ele concedeu uma entrevista na terça a uma página da Internet com algumas críticas à Lava Jato. E até disse coisas pertinentes. Censurou, por exemplo, o espetáculo midiático de Deltan Dallagnol no caso do polêmico PowerPoint. Aquilo foi mesmo um espetáculo deplorável. Quem falava? Era o defensor do estado de direito?

Não exatamente!

Era o “coroné”, o “nhonhô”, aquele que, à diferença do peixe que faz borbulhas de amor, prefere a peixeira. Ou, como se verá, o “parabelo”…

Veja o que ele disse ao se referir à condução coercitiva de um blogueiro petista:

Registre-se em texto:
“Hoje, esse Moro resolveu prender um blogueiro. Ele que me mande prender. Eu recebo a turma dele na bala”.

Eita! Como é macho esse Ciro Gomes! Como fala tudo o que lhe dá na veneta!

Na eleição de 1998, candidato à Presidência pelo PPS, resolveu sair no braço com um eleitor. Foi contido por seguranças. Despencou nas intenções de voto. Voltou à carga em 2002, pelo mesmo partido. Chegou a ficar em segundo lugar. Especulava-se se podia tomar o primeiro de Lula. Aí ele disse que a função de Patrícia Pillar na campanha, então sua mulher e atriz conhecida e respeitada, era dormir com ele. Terminou em quarto.

Visto como pré-candidato para 2018, agora pelo PDT, ele promete, caso Moro mande prendê-lo, “receber a turma dele [do juiz] na bala”. Ciro, como alguns setores da direita e da extrema direita, também deve ser favorável à revisão do Estatuto do Desarmamento. Aliás, por que não o escolhem paraninfo ou orador da turma?

Bem, se esse Brasil hipotético de Ciro não for uma ditadura, e Moro, um ditador, suponho que a “turma” seria…a Polícia Federal. Com Corisco não se brinca!

Como é mesmo?

“Se entrega Corisco!/ Eu não me entrego não/ (…) Eu me entrego só na morte de parabelo na mão”.

Ciro Gomes, o peixe que não faz borbulhas de amor à luz da lua, morre pela boca!

Brega e chique
Agora uma coisa que ficou solta lá atrás. Afirmei que aquela música cantada por Fagner, um de seus maiores sucessos, é um clássico do brega, mas também é chique. A obra é do dominicano Juan Luiz Guerra e se chama… “Borbujas de amor”. Sim, a original é bem pior. Ocorre que na versão em português, vejam vocês!, é de autoria de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos: nada menos do que Ferreira Gullar, que morreu no dia 4 de dezembro do ano passado.

Sim: “para em teu límpido aquário mergulhar” é de lascar! Mas até no cafona, eis a nota do gênio. Está na letra original: “Tengo un corazón/ Que madruga adonde quiera”. E ficou assim a de Gullar: “Tenho um coração/ Bem melhor que não tivera”. Ou você sabe por que isso, em si, é bom ou nunca saberá. É como um gesto elegante. Ou é ou nunca será.

Ferreira Gullar teve um gato chamado Gatito. Quando o bicho morreu, o poeta entrou em depressão. Em março de 2014, escreveu uma crônica de mestre (aqui): “Quisera ser um gato”.

Viram? Dá para ser chique até falando de Ciro Gomes!