Eu não vou brigar com os fatos, as fotos e as imagens. O viral global dos últimos dias foi o da adorável família do professor Robert Kelly. Os dois filhos e a mulher roubaram a cena em sua árida entrevista na BBC sobre a nada adorável Coreia do Norte.

No entanto, eu vou teimar com imagens nada adoráveis nesta semana que marca o sexto aniversário da guerra civil síria, a maior catástrofe humanitária no mundo desde a Segunda Guerra Mundial.

A imagem não contém crianças, embora alguns dos flagrantes mais arrepiantes da guerra civil síria envolvam as vítimas mais jovens. Temos um homem desgrenhado com o cachimbo na mão, escutando o disco na vitrola, os destroços no chão do apartamento, as janelas arrebentadas, tudo quebrado em termos físicos e emocionais. Parece uma montagem, uma montagem cinematográfica.

A cidade é Aleppo, o cartão-postal da Síria dilacerada e o homem dilacerado é Mohammed Mohiedin Anis, também conhecido como Abu Omar, colecionador de carros, antigos como ele. A foto foi tirada em 9 de março e se tornou viral, justamente por se contrapor às imagens de crianças sírias que parecem carregar o fardo da tragédia, entrando no sétimo ano.

Abu Omar já fora tema de fotos e reportagem da agência France Presse. No começo de 2016, foi publicada a estória sobre sua vida e seus 30 carros antigos. Sua vizinhança em Aleppo foi cenário de brutais combates até ser retomada dos rebeldes pelas forças do regime de Bashar Assad com ajuda dos bombardeios aéreos russos estilo terra arrasada.

A France Presse retornou para checar a devastação e reencontrou Abu Omar. Entre tantas perdas, vale registrar que 1/3 dos carros dele foram roubados ou destruídos.

Abu Omar relatou ao repórter e ao fotógrafo da agência France Presse que ele ainda escuta discos de vinil e ali, sentado na cama, no quarto arruinado, na cidade arrasada em um país dizimado, ele colocou na vitrola a música do cantor sírio Mohamed Dia al-Din.

O colecionador de carros antigos vive no passado, esta é a sua identidade. Ele e seu país não têm futuro.

Ouça o comentário completo AQUI.