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Aliança ocidental passa por ajustes com uma caneca de cerveja nas mãos

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan Nova Iorque
  • 30/05/2017 08h28
EFE/EPA/CHRISTIAN BRUNAEFE/EPA/CHRISTIAN BRUNAChanceler alemã Angela Merkel entorna caneca de cerveja em Munique
Munich (Germany), 28/05/2017.- Germany's Christian Democratic Union (CDU) party chairwoman and German Chancellor Angela Merkel drinks from a beer during an election campaign event of the German Christian Social Union (CSU) party at the 46th Truderinger Festwoche festival week in Munich, Bavaria, Germany, 28 May 2017. (Alemania) EFE/EPA/CHRISTIAN BRUNA (Alemania) EFE/EPA/CHRISTIAN BRUNA

Uma ideia bombástica na cabeça e uma caneca de cerveja na mão. Não parece ser uma combinação sensata e sóbria. No entanto, Angela Merkel vive com as consequências do que falou no domingo em comício eleitoral. Com a caneca na mão, ela alertou que a Alemanha e por extensão a Europa não podem mais contar plenamente com os EUA como um parceiro de confiança.

Tradução: com Donald Trump não dá. Na segunda-feira, o governo alemão tentou suavizar um pouco o impacto da declaração, lembrando que existe uma aliança indispensável no mundo ocidental, cujos pilares são os EUA e a Europa.

No entanto, o impacto da declaração é da pesada e corre o risco de ser uma profecia auto-realizável. De um lado, Trump não dá muito bola para o velho mundo e aí não se trata apenas de Europa. Seu negócio é o slogan America First, ou seja, o mundo que esteja comigo ou comigo. O conceito de instituições multilaterais, como Otan e a ONU, é realmente lateral para este presidente americano.

Com sua declaração, Angela Merkel acaba dando munição política para Trump. Em parte, ela está se rendendo ao inevitável e precisa turbinar o motor europeu, aproveitando a chegada de um parceiro mais dinâmico como o presidente francês Emmanuel Macron.

Os tempos mudaram e a aliança ocidental precisa de ajustes. Os americanos não querem dar tanta conta do recado e pagarem tanto as contas. Trump, afinal, não é o primeiro presidente americano a reclamar que os europeus pegam carona no projeto coletivo de segurança que é a Otan, a aliança militar ocidental.

Mas, Angela Merkel está dando um tiro no pé, tornando mais difícil para o sucessor de Trump fazer a necessária correção de curso e abandonar este perigoso populismo nacionalista que o atual presidente apregoa.

Já disse em comentário na segunda-feira que este desencontro na aliança ocidental que se acelerou com a chegada de Trump é brindado especialmente por Vladmir Putin, talvez com um copinho de vodca.

E por que o brinde de Putin? O motivo mais óbvio para a fundação da Otan em 1949, no começo da Guerra Fria, era conter a então União Soviética, para a qual Putin trabalhou como coronel da KGB. Outro propósito-chave da aliança ocidental era manter a Alemanha dentro de uma estrutura multilateral, para impedir que se tornasse novamente uma ameaça como nas duas guerras mundiais do século 20. E um terceiro motivo? Impedir que os americanos recaíssem no isolacionismo.

Tudo o que eu disse acima foi resumido numa fantástica expressão do primeiro secretário-geral da Otan, o general britânico Hastings Ismay: o papel da aliança militar ocidental é “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães por baixo”.

Não podemos culpar Trump por todos os males da humanidade. A história também tem sua responsabilidade e pouco mais de 70 anos após o final da Segunda Guerra Mundial o mapa geopolítico mundial precisa de atualizações, mas melhor desenhá-lo sem uma caneca de cerveja na mão. No entanto, cá entre nós, com Donald Trump é preciso afogar as mágoas e no canecão.