É demais pedir cristalina coerência estratégica de qualquer líder do chamado mundo livre, ainda por cima de um noviço como Donald Trump. As pinceladas, porém, estão aí sobre o que devemos esperar da política externa do presidente eleito dos EUA: indiferença a valores como direitos humanos e democracia; melhores relações com a Rússia do igualmente indiferente Vladimir Putin nestas questões de valores, mais foco no combate ao terror islâmico e ceticismo sobre melhores relações com o Irã.

No departamento de busca de alguma coerência, vamos tentar encontrar a conciliação entre os dois últimos tópicos: combate ao terror islâmico e mais hostilidade contra o Irã. No núcleo do combate ao terror, está o Estado Islâmico, sunita, que também é inimigo de vida ou morte dos aiatolás xiitas de Teerã . Isto significa que nos cálculos reducionistas de Trump, enfraquecer o Estado islâmico, fortalece o estado xiita.

O teste sobre as prioridades está em marcha, literalmente segundo a segundo, na guerra civil síria, com os últimos estertores da batalha na cidade de Aleppo. O devastador triunfo (devastador em termos de terra arrasada) do genocida ditador Bashar Assad em Aleppo de fato é uma derrota estratégica para os rebeldes apoiados pelos EUA e Arábia Saudita, mas também para o Estado Islâmico.

É verdade que os jihadistas campeões da barbárie ainda conseguem vitórias táticas quando Assad precisa canalizar suas melhores tropas para Aleppo. Basta ver que o Estado Islâmico reconquistou a arqueológica cidade de Palmira.

O fato a destacar é que a sobrevida de Assad é um triunfo estratégico para seus patrocinadores, a Rússia de Putin e o Irã dos aiatolás. E não podemos esquecer os terroristas islâmicos da milícia xiita libanesa Hezbollah.

Em outras palavras, ao se acomodar a esta consolidação do poder de Assad, Trump se acomoda também ao Irã dos aiatolás, que têm vencido as batalhas contra o Grande Satã americano. A desastrosa invasão do Iraque por George W. Bush em 2003 reconfigurou o mapa do Oriente Médio a favor de Teerã, pois a ditadura genocida de Saddam Hussein era um freio contra o Irã xiita. E com Barack Obama, foi a acomodação armada com o acordo nuclear, que deu legitimidade em Washington ao regime iraniano.

Em breve, Donald Trump, o aprendiz, vai aprender que o Oriente Médio não é para principiantes.