Em menos de duas semanas, o cidadão Barack Obama irá integrar o seleto clube de ex-presidentes americanos. Agora na terça-feira, ele fará seu discurso de despedida em Chicago, basicamente para enaltecer seu próprio legado.

Aqui, nos próximos dias, teremos mais oportunidades para falar deste legado, mas agora aproveito o gancho para enfatizar um ponto decepcionante de Obama. Decepcionante justamente por ter sido uma área de expectativas messiânicas: Obama faria milagres como "grande comunicador". E no final das contas, seu desempenho foi sofrível.

Semanas antes de sua posse em 20 de janeiro de 2009, Obama e sua equipe fizeram uma escolha que eu considero fatal sobre como "vender" seu governo ao país. Era um momento dramático (muito mais do que agora apesar do discurso apocalíptico de Donald Trump) com a grande recessão em curso e o risco de uma depressão. A economia sangrava e havia uma hemorragia de empregos.

Uma parte da equipe de Obama queria que o novo governo focasse em apenas uma coisa, fácil de explicar ou de apregoar demagogicamente. A outra opção era dar uma dimensão da gravidade da crise e as medidas complicadas para lidar com ela. Tudo difícil de explicar. O grande comunicador Obama optou pelo complicado. Uma cascata de medidas no começo do governo mostraram a dificuldade para o presidente se vender, medidas como o pacote de estímulos, o resgate da indústria automobilística e a reforma de saúde (Obamacare).

Bem diferente do estilo do presidente eleito Donald Trump. Ele bravateia anúncios de companhias que irão adicionar alguns milhares de empregos ou mesmo menos, declarando vitórias triunfais e atraindo grande atenção por coisas pequenas em comparação ao tamanho da economia americana. Obama, por outro lado, nunca conseguiu capitalizar politicamente 75 meses consecutivos de expansão de empregos depois da pior crise econômica desde a Depressão dos anos 30.

Semanas depois da posse, Obama assinou o pacote de estímulos de US$ 780 bilhões e usou boa parte do discurso falando da importância dos investimentos em infra-estrutura, dando pouca atenção aos empregos que seriam salvos ou criados. Investimentos públicos são sinônimos de gastos governamentais e os republicanos martelavam como podiam Obama, o irresponsável, que estava criando um buraco fiscal mais fundo, quando na verdade o pacote de estímulos impediu que que se alargasse e que se aprofundasse.

Ironicamente, uma parcela do pacote de estímulos foi em corte de impostos, cerca de 1/3, e Obama não enfatizou isso na sua marquetagem. E como a crise era brava, a percepção dos americanos era equivocada. Uma pesquisa em 2009 mostrou que 60% dos americanos achavam que os impostos estavam subindo, quando estavam caindo para 95% deles.

Obama impediu uma depressão e politicamente não conseguiu crédito pelo corte de impostos, mas muita reclamação pelos gastos e aumento da dívida. Trump com sua estratégia de comunicação de saturação em massa, a destacar na tuitagem, já se apresenta com um presidente de resultados, mesmo antes da posse.