Quem acompanha meu trabalho, sabe que quando explode uma crise internacional tento ir fundo, de forma obcecada. Estou, portanto, afundando na Coreia do Norte, uma daquelas crises ingratas e inglórias, sem boas soluções, com alternativas variando do cataclisma nuclear a algum outro tipo de cataclisma.

Ninguém sabe ao certo qual é a capacidade nuclear norte-coreana e se os mísseis mostrados em parada militar estão mais para desfile de escola de samba no carnaval, ou não.

No entanto, sabemos do poder destruidor da tirania de Kim Jong-un com armas convencionais, um poder capaz de causar muito estrago ali pertinho, Seul, capital da Coreia do Sul, a 50 quilômetros da zona desmilitarizada. E se Saddam Hussein e Bashar Assad usaram armas químicas, nem melhor pensar na falta de escrúpulos de Kim Jong-un se a coisa engrossar para ele.

Então, vamos nos resignar? Os lances diplomáticos para conter as ambições nucleares norte-coreanas são uma crônica de fracasso. Ian Buruma, jornalista anglo-holandês, conhece bem a história. Ele conta que em 1994, o governo Clinton prometeu ajuda à Coreia do Norte em troca do congelamento do programa nuclear. Em 2002, o regime renegou o acordo. O que ela seria sem o programa nuclear, a não ser uma sanguinária e empobrecida tirania?

Clinton namorou a ideia de bombardear as instalações nucleares norte-coreanas, mas concluiu que o risco era intolerável. Hoje seria ainda maior. Como no caso iraniano (que fez acordo nuclear com a comunidade internacional), as instalações norte-coreanas estão dispersas. Sabotagem cibernética talvez cause estragos, mas nunca será fulminante.

Ian Buruma tem um raciocínio direto que me incomoda neste caso norte-coreano. Ele reflete que parece haver pouca escolha, exceto conviver com a Coreia do Norte como poder nuclear. E o máximo de cooperação que os americanos podem conseguir dos chineses é assegurar que as armas nucleares não serão usadas.

A ideia de batalhar pela unificação da península coreana é salgada. A conta vai morrer com os EUA e o Japão. Buruma conclui o óbvio: a situação é horrível, mas se resignar é preciso. Infelizmente, a vida é assim para quem nasceu na Coreia do Norte. Afinal viver sob o tacão de uma ditadura particularmente odiosa é um destino terrível, mas ainda melhor do que morrer em uma guerra nuclear.

Como eu disse, a linha de raciocínio de Ian Buruma me incomoda e acredito que, quanto mais coexistência com o regime norte-coreano, pior. No entanto, no meu círculo vicioso mental, não sei como os caubóis geopolítico podem pedir a milhões de coreanos (de norte a sul) e vizinhanças da península que aceitem a necessidade de um desfecho mais incisivo para a crise.

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