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Coreia do Norte e a existência do método na loucura

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 06/07/2017 06h06
EFEEFE/RODONG SINMUNKim Jong-un em reunião do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte

 

Eu, como tantos, disparo sem cessar insultos baratos contra a barata atômica Kim Jong-un. Os insultos não melhoram nosso entendimento sobre a aflitiva crise na península coreana. Basta dizer que o gordinho de Pyongyang é louco e está disposto a provocar uma hecatombe nuclear?

Muita se fala que existe método na loucura. Vamos tentar ir por este lógica. Kim Jong-un é o terceiro monarca na dinastia comunista norte-coreana e uma doutrina deste regime fanático, cruel com a população e corrupto nas suas entranhas é a independência total, embora seja uma falácia, pois a Coreia do Norte precisa dos laços chineses para sobreviver.

No entanto, avançar o programa nuclear realmente amplia a margem de manobra do regime, o seu projeto de atuar com crescente autonomia. Existe, é verdade, o uso das fichas nucleares para negociar o respeito da comunidade internacional, assistência econômica e mesmo alimentos quando a fome brava se torna mais intensa.  Nestes termos, sem dúvida, Kim Jong-un não passa de um deliquente que cobra resgate para não barbarizar ainda mais.

O fundamental aqui, porém, é entender melhor o método da loucura. O grande oponente de Kim Jong-un hoje é Donald Trump. O presidente americano ingenuamente quis apelar para a Teoria do Homem Louco (Madman Theory) antes da posse, ou seja, agir de forma tão imprevisível que o adversário fica desnorteado e faz concessões.

Isto não funcionou com Richard Nixon na Guerra do Vietnã e obviamente não agora. Basta ver as novas provocações e os novos testes com mísseis norte-coreanos. Kim Jong-un escolheu o 4 de julho, a data da independência americana, para testar um míssil balístico intercontinental.

Trump, um presidente de pouca leitura e sem nenhuma prévia experiência militar e de governo, nunca estudou a Teoria da Dissuasão. Ele achou que um show de força, via tuítes, iria deter a Coreia do Norte. Pelo contrário, o espetáculo motivou o regime a acelerar os esforços para fabricar uma arma capaz de atingir os EUA.

De certa forma, Kim Jong-un é fichinha diante de Trump ou qualquer presidente americano, mas é fichinha nuclear. Ele vê seu arsenal de bombas e mísseis como uma arma de dissuasão para não amargar a mesma sorte de tiranos como o iraquiano Saddam Hussein e o líbio Muamar Kadafi que abriram mão do seu arsenal.

Seria suicídio para Kim Jong-un disparar um míssil contra Los Angeles. Na retaliação, a Coreia do Norte seria pulverizada. Mas, caso os americanos lancem a “primeira pedra”, ele poderia recorrer a seus pedregulhos.

É um cenário que supostamente faz até um Donald Trump pensar duas vezes e talvez aprender que, numa escala menor que a da Guerra Fria entre americanos e soviéticos, existe um negócio chamado Destruição Mútua Assegurada, o que em inglês é conhecido como MAD. Sim, uma loucura, com método.