Cá estou de volta de curtas férias, ainda enferrujado e no clima já de infeliz ano velho. Não vou falar de Manaus. Vou me concentrar na selva geopolítica global, minha obsessão jornalística. Nunca fui chegado em retrospectivas e perspectivas, mas apesar da overdose que persistiu até dia atrás, preciso investir no tema na minha entradeira de 2017.

Faz sentido uma perspectiva, pois este é um ano que promete, a destacar obviamente a posse em menos de duas semanas de Donald Trump. E de cara, eu recorro aos gurus da consultoria de risco Eurasia sobre os 10 principais riscos de 2017. E qual é o título do relatório? Bem-vindo à recessão geopolítica.

O primeiro risco obviamente envolve Mr.Trump, sinônimo de expressões como instabilidade e imprevisibilidade. O slogan de Trump em política externa é America First, ou seja, o presidente-eleito abre mão das responsabilidades e benefícios da liderança internacional dos EUA.

Tem sido assim desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com a retração do chamado país indispensável, que por sinal começou na era Obama e que vai se acelerar com Trump, vem aí a instabilidade global. Por este motivo, a alcunha dada pela Eurasia de recessão geopolítica e das profundas.

O mundo está perdendo o guardião de regras básicas de segurança e de valores como livre comércio e democracia. Trump exibe sem pudor seus pendores protecionistas e indiferença a direitos humanos.

Sim, serão tempos imprevisíveis em que a única superpotência do planeta será bem menos engajada para impor ordem pela força, compromisso ou descartando conflitos. Trump deverá usar o poder americano basicamente em nome dos interesses americanos, pouco preocupado com seu impacto mais amplo. Aliados, portanto, devem se inquietar, enquanto rivais como China e Rússia, irão testar a nova administração em Washington.

Trump vai gostar deste texto, pois é o foco das atenções. E os outros nove riscos na avaliação da consultoria Eurasia? Não vou me estender muito. O segundo é a China exagerar nas reações às provocações de Trump. O presidente-ditador Ji Xinping precisará calibrar a resposta. Afinal, o regime chinês tem pavor de instabilidade.

Entre outros riscos listados pela Eurasia estão o vácuo de poder na Europa, com Angela Merkel, enfraquecida, e pausa no progresso econômico. E aqui uma menção ao Brasil, que como tantos países, está consumido por desafios políticos e assim não tem como avançar ambiciosos planos econômicos. O consolo é que as coisas ameaçam serem menos amargas do que em 2016 no Brasil.

Consolo à parte, clima já é mesmo de infeliz ano velho.