As elites políticas, econômicas, intelectuais e jornalísticas estão sendo achincalhadas neste ano de triunfo da demagogia e populismo. Então, em solidariedade, presto homenagem às elites, destacando o excelente texto de Lionel Barber, editor-chefe do Financial Times com o título "O ano do demagogo".

Barber escreve que com as vitórias da saída britânica da União Europeia no referendo Brexit e de Donald Trump o "impensável se tornou possível e o marginal invadiu o centro". São ataques contra a ordem arquitetada no pós-guerra, alicerçada em instituições como ONU, FMI, Banco Mundial e Otan. No ano de 2016, Trump disse que a aliança militar ocidental, a Otan, é obsoleta e seu conselheiro Newt Gingrich descreveu a Estônia, que tanto teme a Rússia de Vladimir Putin, como um subúrbio de São Petersburgo.

Foi um bom ano para o homem-forte, gente como Putin, o chinês Xi Jinping e o turco Recip Erdogan. E melhor ainda para o demagogo, aquele que fala o que a massa gosta, o agitador que se alimenta de emoções, preconceitos e o medo. Foi o ano de figuras como Nigel Farage, o padrinho do Brexit; Rodrigo Duterte, o presidente filipino e chefe de esquadrões da morte, e obviamente Trump.

Em termos políticos, Brexit e Trump evidenciam o declínio do sistema partidário tradicional e o fim da clássica divisão entre esquerda e direita. Uma grande perdedora das mudanças é a centr0-esquerda. Basta ver que o presidente francês François Hollande, com 4% de aprovação, desistiu de concorrer à reeleição em 2017. 

A saúde da centro-direita está um pouco melhor, mas sua madrinha global, Angela Merkel, está sob fogo cerrado por suas posições moderadas sobre refugiados e imigrantes, especialmente depois do atentado em Berlim na segunda-feira passada.

Lionel Barber escreve que em 2016 assistimos ao nascimento da "quarta via", uma nova marca de política com seus componentes de nativismo, protecionismo comercial e nostalgia cultural, uma marca capturada por Trump com seu slogan "Make America Great Again", torne a América grande novamente". 

Existe desilusão em muitas partes com a globalização. Especialmente nos países mais avançados, não se trata apenas de um fosso econômico mais largo entre perdedores e ganhadores, mas da divisão cultural entre os que se sentem mais à vontade e os que não com o ritmo de mudanças, sejam na tecnologia, sejam em temas sociais como casamento gay.

Sem dúvida, a sova que as elites sofreram em 2016 é um alerta e lições devem ser aprendidas para impedir que a narrativa e os votos sejam capturados pelos demagogos. 

Lionel Barber não termina seu texto de forma apocalíptica. Observa existir a crença que os EUA sejam um país de leis e que o sistema vai impor limites ao governante Donald Trump. Mas, a confiança no poder das instituições democráticas será testada nos próximos meses.

Mas esta é conversa para 2017. Estou saindo de férias por alguns dias e assim desejo um feliz Natal e um ano futuro melhor, vamos ser otimistas.