Os anseios curdos e a desolação síria

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 27/09/2017 11h01
EFE/Jens BuettnerA grosso modo, o que aconteceu com o povo judeu acontece hoje com o povo curdo

Os anseios de independência de um povo são sistematicamente traídos pelos jogos políticos e interesses de países e grandes potências de uma região. A grosso modo, o que aconteceu com o povo judeu acontece hoje com o povo curdo.

Não é à toa que Israel (que caminha para 70 anos de independência em 2018) é o único país que endossa os anseios do povo curdo. Em um lance para reforçar seu poder de barganha, os curdos da região semiautônoma no Iraque realizaram o referendo na segunda-feira.

O voto de caráter consultivo obviamente resultou em apoio esmagador à independência e, muito importante, o comparecimento às urnas foi maciço.

Nenhuma surpresa no resultado, assim como na reação do Iraque e de países vizinhos, onde os curdos vivem dispersos. A reação foi furiosamente contrária, pontilhada por ameaças, a destacar do próprio Iraque, Turquia e Irã (os curdos também vivem na Síria).

Aliados de confiança dos EUA, os curdos são mais uma vez traídos pela superpotência. Washington, desta vez, justifica sua oposição ao anseio de independência em nome de interesses estratégicos como preservar a unidade do Iraque e a necessidade de manter o foco na luta contra o Estado Islâmico, da qual milícias curdas no Iraque e Síria, são adversários renhidos.

Os curdos estão acostumados à traição. Tem sido assim desde o final da Primeira Guerra Mundial, quando as potências vencedoras retalharam o Oriente Médio entre elas, negando um estado aos curdos.

E aproveito para embalar mais um comentário desolador sobre a região. Em reportagem de primeira página na edição de terça-feira, o New York Times estima que a guerra civil na Síria se arrasta, mas “o futuro de Bashar Assad parece mais seguro do que nunca”.

No campo de batalha, não há adversário capaz ou disposto a derrubá-lo. As forças rebeldes se dissipam e o governo Trump cancelou o programa de ajuda da CIA a alguns grupos. Enquanto isso, o Estado Islâmico é enxotado dos seus bastiões na Síria (e também no Iraque).

Para o New York Times, poderes regionais, potências de fora da região e mesmo os sírios assumem cada vez mais que o genocida Bashar Assad está aí para ficar, mandando em um país largamente reduzido.