E chegamos a este ponto na França, a gloriosa França paladina da civilização e dos valores universais da democracia: a poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais (no domingo) e a menos de três semanas do segundo turno ( 7 de maio), são quatro candidatos para valer na corrida e três cenários de pesadelo.

Estou sendo parcial no meu apoio a Emmanuel Macron, um independente de centro, na economia e que pende para a esquerda em questões sociais? Claro que estou e como não? Aos 39 anos, nunca testado eleitoralmente e cujo movimento político foi criado há menos de um ano, Macron é a única expectativa de um sono sem terríveis pesadelos.

Basta ver os outros três cenários: Marine Le Pen é o que é. A carismática líder da extrema-direita faz o que o pode para remover as piores ervas daninhas da sua Frente Nacional, mas as raízes do seu movimento estão no fascismo. Por um bom tempo, ela quis retirar a mancha antissemita do seu movimento, tão associada a seu pai, Jean Marie Le Pen, alvejando os muçulmanos.

Mas dias atrás, foi aquele escorregão vergonhoso de Marine, quando ela quis eximir a França de responsabilidade no Holocausto, negando o fato óbvio do colaboracionismo na deportação dos judeus franceses para os campos de concentração (algo já reconhecido pelo Estado francês).

François Fillon é o único dos quatro candidatos associado a um partido do establishment, o Republicano. Fillon é extremamente conservador em questões econômicas e sociais. No entanto, sua carolice não se estende à corrupção. Ele está sob investigação por práticas de nepotismo

E temos a nova estrela nesta corrida eleitoral com tantas surpresas. O autodefinido comunista Jean-Luc Mélenchon, com suas propostas bizarras de inflar até onde for possível o já balofo Estado francês, prometendo ainda por cima alta de salários e redução de jornada de trabalho para 32 horas semanais. Como Marine Le Pen, Mélenchon detesta a globalização e a Otan, além de querer remover a França da zona do euro. Gosta mesmo do chavismo e do castrismo.

E Mélenchon, como Marine Le Pen e François Fillon, é chegado em Vladimir Putin. A troika gosta do chefão do Kremlin por razões variadas. Para Mélenchon, é o desafio do presidente russo ao império americano, enquanto Le Pen e Fillon por vislumbrarem em Putin o novo paladino da civilização cristã.

Nesta corrida de lances inesperados, Emmanuel Macron está isolado na reta final do primeiro turno como o único campeão entusiasmado de uma Europa forte e alerta contra a ameaça Putin. Como não apoiar o único candidato que realmente cerra fileiras com o projeto europeu, as alianças transatlânticas e a ordem liberal global?

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