Reinaldo, você ouviu a entrevista que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu à Jovem Pan. O que você destacaria de mais relevante?

Ouvi sim, é claro. Olá amigos e ouvintes da Jovem Pan. Em primeiro lugar quero dar os parabéns a você, Anchieta Filho, ao Patrick Santos, pelo excelente trabalho.

Olha, FHC continua sendo um homem público, de uma impressionante lucidez e uma incrível elegância com os adversários. Uma civilidade está a nos fazer falta. Na política, nas ruas, nos espaços públicos. Está em curso um processo de embrutecimento do país que os especialistas deveriam estudar.

Eu elegeria sua resposta final como aquela mais virtuosa, que pode servir de eixo para uma campanha da oposição, por mais intangível e abstrata que pareça. Refiro-me às questão das crenças e dos valores. O sociólogo FHC faz uma indagação e dá uma resposta que me parecem muito relevantes.

Porque existe um crescimento tão grande de certas denominações pentecostais, ele indaga. E responde: porque elas formam uma rede de solidariedade, o país está precisando disso. Essa é uma constatação preciosa, esse crescimento das igrejas evangélicas só acontece porque elas contribuem de forma importante para mudar e disciplinar a vida das pessoas, tornando-a melhor. Porque se expandiria tanto uma coisa que lhes faria mal?

A política brasileira perdeu a força do exemplo, o Estado tem sido relapso ao cumprir suas obrigações, o que FHC também aponta com muita propriedade. Isso conduz as pessoas a um certo sentimento de cansaço e de desesperança. Por isso muita gente saiu às ruas para protestar, e depois se recolheu às suas casas em razão dos vândalos, que nada têm a dizer.

FHC tem segue sendo um estadista. Ao comentar o pessimismo do mercado não procurou tirar uma casquinha do atual governo e afirmou que há certo exagero nas críticas, no que diga-se concordo com ele. Também evitou ataque fácil a Guido Mantega, apontando, com acerto, que o fato de o Financial Times pedir sua cabeça acaba contribuindo para que ele fique no cargo. Humilde, faz também uma auto-crítica e admite que seu governo cometeu erros na crise energética de 2001.

Mas é um líder da oposição, e aponta falhas evidentes na gestão da presidente Dilma. Como a frouxidão nas contas públicas, erros grosseiros na condução da política energética, com o  abandono do etanol e a ação desastrada na Petrobras. Além de uma relação perniciosa com os partidos políticos, o que leva a presidente a não ter nada menos que 39 ministérios.

O ex-presidente também acerta ao afirmar que a disputa neste ano se dá num cenário um pouco diferente de 2006 e 2010. Quando, respectivamente, Lula se re-elegeu e Dilma se fez presidente, desta feita o bloco hegemônico se dividiu. Um pedaço do grupo que chegou ao poder se descolou da "nave mãe" e foi para a oposição. Refere-se, é claro, ao governador Eduardo Campos, que deve disputar a presidência pelo PSB com apoio de Marina Silva, uma ex-ministra de Lula. Em tese ao menos, as chances dos que se opõe à Dilma aumentam.

Mas a oposição tem projeto? Segundo o ex-presidente do Brasil, o governo tem uma presença muito forte na imprensa, sobretudo nas tevês. E a oposição tem pouco espaço para dizer o que pensa. Essa super-exposição do oficialismo é verdadeira, mas nesse particular diverge um pouco de sua fala.

Entendo que a oposição ao londo desses mais de onze anos de poder petista tem comparecido pouco para enfrentamento. Sobretudo, não tem feito justamente o que há mais de dez anos chamo de "guerra de valores", sem isso não há política.

Destaco finalmente que ouvimos há pouco o homem que mudou definitivamente a história do Brasil e que lhe deu um futuro ao lhe dar uma moeda. Em tempos de paz o mundo não havia recebido até então um plano de economia tão ousado e tão bem sucedido. É muito bom que aquela boçalidade do petismo sobre herança maldita já não cole mais. É bom que FHC ocupe em vida, com sua impressionante lucidez, um lugar na história.