Pobre Angela Merkel, que tem razões para ver ameaçado o seu cargo nas próximas eleições. Pobre Alemanha (!?), que corre o risco de ver apeada do poder uma boa e séria governante por ter cometido um erro primário, embora tenha sido aplaudida por quase todo o mundo. O problema é que o Estado Islâmico também… aplaudia. Por que isso?

Tudo indica que o atentado que matou 12 pessoas em Berlim e deixou 48 feridos foi cometido pelo tunisiano Anis Amri, de 24 anos, que chegou à Alemanha em julho de 2015 e pediu asilo. Entrou na mira da polícia, mas acabou sendo deixado de lado. Não conseguiu o visto permanente, mas também não chegou a ser deportado… Em suma, os serviços de segurança falharam miseravelmente. Mas vai ocorrer o que Merkel mais temia, e ela chegou a vocalizar esse risco: a tragédia será atribuída à sua política com os refugiados.

Não seria difícil, pensando relações simples de causa e efeito, demonstrar que não é bem assim. EUA (2001), Espanha (2004), Inglaterra (2005), França (2012), EUA (2013), França (2015), Dinamarca (2015), Bélgica (2016), França (2016)… Como se vê, um país não precisa receber refugiados em massa para estar exposto ao terror. Com alguma frequência, o perigo já morava ao lado, não precisou vir de fora.

Mas não me parece razoável pedir a uma população assustada, que já se deu conta de que o terrorismo não tem mais de apelar a métodos tradicionais, como bombas e armas, que dê uma resposta fria e racional ao episódio.

Até porque, vamos convir: por mais edificante que tenha sido a política de Angela Merkel, elogiada por pensadores de esquerda mundo agora, racional ela não era.

Num post de 16 de novembro de 2015, escrevi no meu blog: “Como o sensato, em dias recentes, não era, claro!, escorraçar os refugiados, mas, quando menos, criar critérios mais severos para a entrada deles na Europa. Ou alguém duvidava de que aquele movimento estivesse na mira do terror e de que se abriria uma janela formidável para a entrada em massa de terroristas? Se o Estado islâmico blefa ou não quando anuncia que infiltrou milhares de seus militantes no continente, não sei. Bastava, meus caros, que isso fosse possível — e é claro que era”.

Antes ainda, no dia 22 de setembro do ano passado, observei, num bate-papo com leitores no auditório da editora É Realizações — por ocasião do lançamento do livro “Em Defesa do Preconceito”, de Theodore Dalrymple, cujo prefácio assino —, que a melhor maneira de ser bom é ser racional. A Alemanha deu um passo arriscado, que ninguém mais seguiu, talvez preocupada também em amansar a sua culpa histórica…

Ainda não se tem a certeza absoluta de que o terrorista seja mesmo Anis Amri, embora não se tenha mais dúvida de que ele seja terrorista. Os críticos das escolhas feitas pela chanceler alertavam justamente para o risco da infiltração. E a infiltração aconteceu.

Como defender tal escolha diante de 12 cadáveres e do medo que se espalha país afora?

Merkel comoveu muita gente. Mas, da forma como se fez a coisa, era uma escolha insensata pelo risco que comportava, ainda que, como resta evidenciado, o terrorismo não precise se infiltrar entre refugiados para provocar estragos.

A população, com justificado medo, não tem muito tempo e paciência para fazer esses cálculos. E os adversários da chanceler não deixarão barato.