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Mortadela para Coxinha: “Vamos falar coisa que nóis num entende?”

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 29/03/2017 10h42
DivulgaçãoDivulgaçãoadoniran barbosa

Os dias andam muito propícios à demonização da política e dos políticos. Basta sair por aí acusando “QUASE” todo mundo de tudo, e os seguidores aparecerão. E a estupidez só faz crescer. Vem chegando mais gente. Já retomo a questão. Mas vamos antes a algumas considerações.

Se a gente não toma cuidado, acaba ficando alarmado, entrando em desespero: basta se lembrar de que quase tudo no mundo tem apenas uma resposta certa para infinitas erradas, acaba entrando em desespero.

Por óbvio, é raro que o erro não seja mais fácil de acatar, certo? Afinal, se você acorda com o sol à sua esquerda e se ele se põe à sua direita, não é nenhum absurdo supor que o astro tenha se movido. Imaginem o trabalho que já deu sugerir que as coisas não são bem assim.

A política é hoje o terreno privilegiado dos astrônomos do empirismo. Qualquer um acha que pode sugerir qualquer coisa para resolver qualquer assunto com base na sua experiência ou impressão pessoais.

Há um samba muito bom do genial Adoniran Barbosa, em parceria com Carlinhos Vergueiro, chamado “Torresmo à Milanesa”. Ao pé do texto, vai o vídeo. Num dado momento, ouve-se lá:

Vamos armoçar
Sentados na calçada
Conversar sobre isso e aquilo
Coisas que nóis não entende nada
Depois, puxá uma paia
Andar um pouco Pra fazer o quilo

As estupidamente mal chamadas “elites do pensamento” estão comendo torresmo à milanesa na calçada, conversando isso e aquilo, coisas de que não entendem… nada!

Ao ponto
Leio que deve ser lançado, no mês que vem, um novo movimento que pretende apoiar uma tal “renovação política” a partir das eleições de 2018.

É batizado de “Acredito” e terá o apoio da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, criada pelo empresário Guilherme Leal, um dos sócios da Natura. Ele foi candidato a vice de Marina Silva em 2010.

Até no uso da primeira pessoa, só que do singular, não do plural, parece ser uma tentativa nativa do “Podemos” espanhol.

À frente do “Acredito” estão o professor da Fundação Getulio Vargas Felipe Oriá, o consultor José Frederico Lyra e a pesquisadora Tábata Pontes. Para 2018, o grupo deve apoiar candidatos que nunca tiveram mandato e queiram concorrer a deputado federal ou estadual.

Segundo Lyra, o projeto nasceu da necessidade de “um movimento mais progressista, com um projeto de médio prazo, para fazer a renovação não do jeito mais fácil, mas do jeito certo”.

Ah, bom…

Entendo. Quando contrata executivos para a sua Natura, Leal deve dar preferência àqueles que, a exemplo de Dilma, não conseguiram manter aberta uma lojinha da linha “R$ 1,99” — não sei o atual “minimo minimorum”…

Essa turma é aquela “marineira” de sempre, mas meio desiludida com o personalismo da xamã. A pregação e a conversa são as mesmas. É claro que estarão todos juntos.

Como é? Então eles vão apoiar candidatos que nunca tiveram mandatos, como se tudo fosse uma questão de o indivíduo dizer “sim” ou “não” a determinados vícios?

A política só não é tocada por políticos profissionais, de carreira, nas ditaduras. Afinal, não é preciso convencer ninguém de nada. A profissionalização da atividade, ao contrário do que sugerem essas almas nobres, é um bem para os países, não o contrário.

Imaginem um Churchill neófito durante a Segunda Guerra…

Esses movimentos contra a política — QUE SÃO TOCADOS POR PESSOAS QUE JÁ SÃO POLÍTICAS E QUE PRETENDEM DISPUTAR ELEIÇÕES — me enchem de preguiça.

Não conheço os professores, não sei que pito tocam, talvez sejam pessoas boas e respeitáveis, mas, pela tese, não tenho respeito nenhum. Ao contrário: devoto-lhe um profundo desprezo. Acho vigarice intelectual, que não tem ideologia: pode ser de direita, de centro, de esquerda…

Mas Adoniran, ao menos, nos livra da indigência. Segue vídeo.