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Pingo Final: triste: povo falta a encontro. Lição: rede social não é vida real

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 27/03/2017 10h13
EFE/FERNANDO BIZERRA JREFE/FERNANDO BIZERRA JRManifestantes em apoio à Lava Jato na Avenida Paulista
BRA150. SAO PAULO (BRASIL), 26/03/2017-. Brasileños participan en una manifestación contra la corrupción hoy, domingo 26 de marzo de 2017, en la avenida Paulista en la ciudad de Sao Paulo (Brasil). Las manifestaciones contra la corrupción convocadas para hoy por los movimientos no partidarios que el año pasado movilizaron a millones de brasileños contra la destituida presidenta Dilma Rousseff tuvieron una adhesión muy inferior a la esperada por sus organizadores. EFE/FERNANDO BIZERRA JR

Bem, não dá para ignorar o óbvio: a baixa adesão às manifestações deste dia 26 surpreendeu até aqueles que, a exemplo deste escriba, eram os mais pessimistas. Como sabem os leitores, fui contra o ato desde o primeiro momento, afirmei que ajudava a levar água para o moinho das esquerdas e apanhei muito nas redes sociais por isso.

Por falar em “redes”, mais uma vez, a realidade dá uma lição que muitos se negarão a aprender — até porque quem sabe muito pouco costuma não ter sede de conhecimento, já que é o aprender que estabelece uma nova fronteira da ignorância, certo? Que lição é essa? Há uma diferença nada desprezível entre mundo real e mundo virtual.

Antes que volte às manifestações, uma lembrança. Consultem os arquivos. O meu primeiro grande choque com grupos de viés direitista se deu com a Primavera Árabe. Chamei, desde o início, de “Inverno Árabe” — depois a sacada virou até um clichê da crítica. Tirei sarro da expressão “Revolução do Facebook”. No caso do Egito, dizia, é a “revolução da Irmandade Muçulmana”, que é bem mais antiga, e o que se tinha era um movimento reacionário, não revolucionário. Certa feita cheguei a manter um debate até ríspido a respeito do assunto no clube Hebraica, em São Paulo.

Percebi, infelizmente, que parte da simpatia pela dita “Primavera Árabe” era só anti-islamismo. E, bem, os incautos não se davam conta de que se estava diante de um recrudescimento do Islã. Não há muito a fazer com os que se negam a aprender.

Ninguém é dono do povo
Como poderia dizer o Marx de “O 18 Brumário”, convém que as pessoas não confundam a própria pantomima pessoal com a história da humanidade, não é mesmo? E não afirmo isso apenas em relação aos outros. Prego-me essa lição todos os dias para que eu mesmo não confunda o meu desejo com os fatos; os meus anseios com a realidade; a minha eventual vaidade com a matemática. Nossos antipetistas deveriam ler “O 18 Brumário”. Nossos antipetistas deveriam ler. Não precisa nem de objeto direto. Sim, teoria faz falta. É claro que as parteiras, as práticas, são úteis e podem salvar vidas. Mas nunca ninguém pensou em criar uma maternidade só para elas. Acho que nem o PT chegou a tanto.

Não foram os movimentos de rua, o Facebook, o Reinaldo Azevedo, a Jovem Pan, a Folha, a Globo, outros ditos formadores de opinião que se querem ainda mais influentes que levaram milhões às ruas em defesa do impeachment. Foi a certeza, ancorada nos fatos, de que um partido conduzia o processo de assalto aos cofres e à legalidade. Foi a brutal crise econômica decorrente dos desastres do lulo-petismo. O Facebook e os outros elementos todos, eu inclusive, fomos apenas passageiros, eventualmente mensageiros, de uma insatisfação que estava viva nas pessoas. Olhavam para o seu futuro e não viam nada, como um piloto perdido numa nuvem, sem visibilidade e sem instrumentos de voo.

Grande catástrofe
Aí veio a grande catástrofe. A Lava Jato, com Rodrigo Janot no comando, disse ao Brasil que aquela centralidade do PT no esquema criminosa era falsa. Todos eram culpados igualmente. Para recorrer a expressão que já empreguei aqui, “partidos, políticos e pecados” seriam iguais, com uma distribuição fraternal e igualitária de culpas. Não sobrou alternativa que não a pura e simples militância de grupos políticos que se dizem contra a política.

Daí decorre uma pauta que não tem saída, na medida em que rejeita, por princípio, o possível e não diz como é que se alcança o impossível. O caso do fundo público é exemplar. Nas ruas, os gatos-pingados protestaram contra o dito-cujo. Mas qual seria a alternativa? Não há. Há flagrantes estupefacientes de descolamento entre candidatos a líderes e aqueles que seriam os liderados. Ainda tratarei deles.

Se não Marx, a Bíblia ao menos. Houve uma hora em que o povo começou a desconfiar se Moisés sabia mesmo o que estava fazendo. Deu em bezerro de ouro, não é? Em falso ídolo. Mas, naquele caso, Deus — ainda que aquele irascível! — estava no comando. E as coisas se arranjaram. Desta vez, parece que o demônio da prepotência e da intransigência quis testar seus limites.

E o povo faltou ao encontro.