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Doentes com infarto ou AVC ficam em macas ou cadeiras de prontos-socorros

  • Por Jovem Pan
  • 13/03/2017 13h07
Agência Brasil/Marcello Casal Jr.Agência Brasil/Marcello Casal Jr.Sistema Único de Saúde (SUS)

O descaso com a Saúde Pública no governo federal é tão grande, que até doente com infarto fica em maca ou cadeira até 10 dias, por falta de vagas em UTIs. Fato grave que marca prontos-socorros do SUS em todo o País, inclusive em cidades de São Paulo, como Mongaguá, a 97 quilômetros da capital.

São casos graves como o de senhor de 65 anos, com diagnóstico incerto – infarto ou derrame cerebral -, em maca há 10 dias por falta de vaga em UTI. Osvaldo Facina está desde 3 de março amarrado numa maca no Pronto Socorro Vera Cruz em Mongaguá e já está com pneumonia.  

Uma história que começou com dengue, depois, confusão mental e, quando o SAMU socorreu houve diagnóstico incerto: infarto ou derrame cerebral. Em entrevista à jornalista Izilda Alves, a cunhada do senhor Facina, Cilene Perrone Fonseca, conta que nem o resultado do exame foi comunicado à família:

“Ele ficou lá. Sedaram-no e ele já não reconhecia ninguém, não falava. Falaram: ‘provavelmente AVC não foi porque ele está com força na mão’. Tiveram que amarrar ele na cama, ele ficou uma semana para conseguir a vaga, conseguir a tomografia. Fez a tomografia e até agora não tem o resultado. Resolveram entubá-lo, não sei por quê. Pegou pneumonia e está com sonda alimentar. Temos que comprar e levar remédios. Ele está há mais de 10 dias precisando fazer cateterismo e de uma UTI cardiológica, mas não tem vaga”, relata Cilene.

Por falta de vaga em UTI, doente com diagnóstico incerto-infarto ou derrame-,é mantido amarrado em maca, há 10 dias, em PS de Mongaguá.

A secretária de Saúde de Mongaguá, enfermeira Rivanilce de Souza Oliveira, afirma que faltam vagas para UTI e cirurgias em toda a Baixada Santista. “Infelizmente não há a quantidade de leitos suficiente na baixada. UTI cardiológica é um caso mais específica e acaba demorando mais. A ampliação dos serviços de saúde não está caminhando simultaneamente com a demanda”, diz a secretária.

A Secretaria de Saúde de Mongaguá explica que toda vaga é solicitada à Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde, da Secretaria Estadual.

O diretor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, doutor Celso Amodeo, confirma estar diminuindo no SUS o número de vagas em UTI.

“A situação de terapia intensiva no Brasil é muito delicada. Hoje há locais em que pacientes que chegam com infarto no miocárdio, e deveriam estar dentro de uma unidade coronária, ficam aguardando vaga dentro do pronto-socorro. Os que estão mais estáveis ficam até sentados aguardando a vaga, enquanto outros mais instáveis ficam deitados”, afirma Amodeo.

Especialistas destacam que o alto índice de desemprego no Brasil significa perder também planos de saúde e ser atendido na rede SUS. Mas o Ministério da Saúde não leva em consideração os 12 milhões de desempregados e não amplia o atendimento, garantido pela Constituição.

Pelo contrário, alertam especialistas, a tendência do Ministério da Saúde do governo federal é privatizar o atendimento na rede pública. O alerta vem nas palavras do ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão:

“O governo está propondo uma saída que é uma fraude. Está propondo colocar no mercado planos de saúde populares, ou simplificados. Sabemos que na prática não vai resolver nada porque quando a pessoa que comprar um plano desse tiver de buscar um atendimento mais especializado, como leito de UTI, transplante ou cirurgia, vai ter que ir para o SUS”, avalia Temporão. “Ou nós colocamos a saúde pública como prioridade nacional e mudamos o modelo de financiamento, ou esse quadro dramático vai se agravar”.

Todos os entrevistados descreveram a precariedade da rede SUS em todo o País, alertando para falta de vagas em UTIs e até para cirurgias. Todos destacaram o risco aos doentes pela falta de investimentos no SUS, onde até quem teve infarto fica em maca esperando por vaga em UTI.