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Ministério investiga vacina e propõe corte maior na carne para reverter suspensão dos Estados Unidos

  • Por Jovem Pan
  • 23/06/2017 11h04
BRA100a. LAPA (BRASIL), 21/03/2017 - El Ministerio de Agricultura de Brasil, Blairo Maggi, realiza una inspección técnica al grupo cárnico JBS Seara en la ciudad de Lapa, estado de Paraná, Brasil, hoy martes 21 de marzo de 2017. Según la policía, varias de las principales cárnicas del país, entre ellas JBS y BRF, con la complicidad de fiscales sanitarios corruptos, "maquillaron" con productos químicos carnes que estaban en mal estado y no cumplían con los requisitos para la exportación.EFE/Joédson AlvesEFE/Joédson AlvesMinistro da Agricultura Blairo Maggi vistoria produção de carne em fábrica da JBS Seara em Lapa

O ministro a Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, Blairo Maggi, disse em entrevista exclusiva à Jovem Pan nesta sexta (23) que “problemas” em lotes recentes nas vacinas de febre aftosa são a provável causa dos abscessos (tipo de inflamação purulenta) encontrados na parte interna posterior de carnes brasileiras exportadas para os Estados Unidos.

Os EUA suspenderam nesta quinta (22) a importação de carne fresca brasileira, um mercado novo para o Brasil, que conseguiu acordo para vender produto “in natura” em agosto do ano passado. Autoridades americanas alegaram questões sanitárias relacionadas à saúde animal após encontrarem abscessos em 11% dos produtos fiscalizados. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) exige aumento na fiscalização da carne brasileira para retomar o comércio. A suspensão ocorreu um dia depois do Brasil fazer um autoembargo em cinco plantas de produção. Com a suspensão dos Estados Unidos, as 13 plantas brasileiras que estavam autorizadas a vender carne fresca para o país têm a exportação suspensa.

O ministério já autorizou uma sindicância para apurar o tipo de reagente que está sendo utilizado na composição da vacina. “Já autorizei para o Ministério da Agricultura fazer um levantamento se temos algum problema nas vacinas utilizadas neste ano que está causando uma quantidade maior de abscesso”, disse Maggi.

“Na vacina existe um veículo, aquele que leva o vírus para dentro do animal. Pode nesse lote ou nesse ano estar com algum problema nesses veículos utilizados”, afirma o ministro da Agricultura, que diz ter ouvido relatos de produtores que “têm percebido um aumento da fibrose e abscesso” na carne nesse ano.

“O cliente sempre tem razão”

Outra medida proposta pelo ministro, mas ainda em análise, é o corte maior da carne enviada para os EUA, a fim de garantir que o produto não contenha os abscessos. 

“O Brasil precisa fazer uma fiscalização, corrigir e, literalmente, cortar mais na carne, fazer um toalete maior para poder mandar essa carne para os EUA”, disse Maggi, lembrando que a carne afetada pela inflamação é apenas a carne de dianteira, na parte da frente do bovino. “Uma parte da carne foi com alguns pedaços com abscesso. Isso não foi retirado aqui no embarque. Quando foi feita a limpeza da peça, os frigoríficos não fizeram isso. É uma questão puramente de manejo”, afirma.

O ministro da Pecuária lembra que o mercado americano, além de novo, é “exigente”. “Nós já fizemos exportação dessas peças para mercados menos exigentes. Na exigência dos Estados Unidos, nós temos que apertar a fiscalização”, compara.

“Talvez uma das medidas que nós tenhamos que tomar, está sendo estudada, seja a de não deixar exportar as carnes inteiras, e sim fazer os cortes aqui em que você possa identificar esses possíveis abscessos que tem na carne”, sugere. “O cliente sempre tem razão, ele quer uma coisa diferenciada, paga um preço melhor para isso e nós temos que nos sujeitar a fazer isso. Vamos perder alguns quilos de carne nessa limpeza, mas o preço deles é melhor, compensador”, garante Maggi.

Prazo para reabrir o mercado

O ministro Blairo Maggi quer se reunir já na terça ou quarta-feira (28) da semana que vem com autoridades americanas para “fazer as devidas explicações e tentar reabrir esse mercado o mais rápido possível”.

A reunião oficialmente marcada, no entanto, é apenas em três semanas, 13 de julho, para que o Brasil apresente as mudanças já realizadas. 

“Vai depender muito mais de nós agora, do Brasil, fazermos as mudanças que têm que ser feitas certificar os EUA sobre as mudanças”, reconhece. “Eles não fizeram um banimento da carne brasileira. Fizeram uma suspensão até que nós tomemos as medidas cabíveis. Já estamos tomando essas medidas”, afirma o ministro.

Entenda

Antes da suspensão americana, o ministério da Agricultura brasileiro já havia se antecipado na última quarta (21) e suspendeu a exportação da carne de cinco frigoríficos. Autoridades americanas identificaram irregularidades provocadas pela reação à vacina contra a febre aftosa. Essa reação pode provocar abscessos (tipo de inflamação purulenta) nas partes internas da carne.

A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) aponta que as exportações de carne fresca para os EUA somaram US$ 18,95 bilhões de janeiro a maio deste ano, o que representa 28,5% do total de carne bovina exportada para o país.

Assista à entrevista completa de Blairo Maggi no Jornal da Manhã:

Febre e vacinação

Maggi esclarece que, apesar de a vacina provavelmente ter provocado o problema na carne, não há febre aftosa no Brasil. O ministro quer inclusive, “em poucos anos”, parar de vacinar o gado brasileiro.

“Não existe febre aftosa. Há muitos anos não existe o vírus circulando no Brasil”, explica. “Estamos trabalhando para em poucos anos retirar a vacina e estamos caminhando nessa direção”, garante Blairo Maggi. Ele diz que a comunidade científica e produtores de carne estão sendo ouvidos.

Mercado – “beijinho e abraço” x “cotovelada”

“A pecuária não passa por um problema bom. Temos problemas com JBS, com Carne Fraca”, reconhece o ministro, que viajou recentemente para a China e Hong Kong e descobriu que a Operação Carne Fraca, que revelou em março fraudes na fiscalização de frigoríficos por membros do próprio ministério, ainda repercute muito por lá. “Lá a operação é conhecida como ‘carne podre’. Já de ouvir as pessoas têm uma repulsa da carne brasileira”.

“Há que se compreender também que tudo isso é uma questão de mercado. Os produtores americanos forçam o governo americano a não comprar carne brasileira, porque nós somos concorrentes. Os europeus querem uma renegociação com o Mercosul no final do ano. Nos colocam faca no pescoço para fazer as negociações”, descreve o ministro.

“Comércio não se faz dando beijinhos, abraços. Tem que ser na cotovelada e você tem que estar preparado para esse tipo de atuação, que é um mercado mundial, global, e que tem muita oferta de produto no momento”

“Vivemos um momento difícil e complicado, mas não podemos desanimar. Vamos trabalhar para reconquistar tudo isso que o Brasil já teve, o mercado favorável, que hoje é desfavorável”, conclui.