Bolsonaro fala para eleitorado cativo, desliza sobre igualdade de gênero e recicla provocação à Globo no JN

  • Por Jovem Pan
  • 28/08/2018 21h47
Dida Sampaio/Estadão ConteúdoEntrevista do presidenciável à Globo contou com vários momentos de tensão

A participação de Jair Bolsonaro (PSL) na série de sabatinas com os presidenciáveis promovida pelo Jornal Nacional nesta terça-feira (28) foi enérgica. Durante a conversa de 30 minutos, o candidato entrou em embates diretos com os apresentadores Renata Vasconcellos e William Bonner, destacou promessas já conhecidas de sua campanha (falando diretamente com seu eleitorado cativo) e deslizou em algumas respostas. A primeira aconteceu quando o assunto foi a equiparação salarial entre homens e mulheres.

Ao ser questionado sobre o tema, Bolsonaro repetiu mais uma vez o que costuma dizer: segundo ele, a CLT já garante essa equiparação, portanto não há nada mais a se fazer no quesito. Quando Renata insistiu, porém, que mesmo assim essa desigualdade existe na prática, ele rebateu com uma provocação, sugerindo que poderia haver uma diferença ali mesmo entre o valor recebido por ela e pelo seu companheiro de bancada.

“Eu poderia fazer questionamentos sobre seus salários, candidato. O meu não diz respeito a ninguém. Mas garanto que jamais aceitaria receber salário menor que o de um homem que exercesse as mesmas funções”, disparou a jornalista.

Em seguida, o entrevistado foi perguntado se estava disposto a retirar direitos dos trabalhadores e novamente usou uma frase que já se tornou frequente em sua campanha: “o trabalhador terá que escolher entre menos direitos e emprego ou mais direitos e desemprego”. Bonner pediu, então, para que ele pontuasse exatamente quais direitos seriam retirados. “Os direitos estão no artigo 7 da Constituição, não podem ser retirados”, disse, incomodando o entrevistador. “Candidato, por favor, estou tentando extrair uma informação objetiva. Não seria correto o eleitor saber qual tipo de direito o senhor está disposto a tirar?”, insistiu o jornalista. “Quem tira direito não é o chefe do executivo”, concluiu, desconversando.

Homofobia e “golpe” militar de 1964

Outro momento de tensão apareceu assim que o presidenciável foi questionado sobre algumas falas homofóbicas que já declarou em sua trajetória, como a de que, se tivesse um filho gay, iria agredi-lo. Ele assumiu que fez essa e outras declarações por conta da “temperatura alta” das discussões, pediu desculpas a quem se sentiu ofendido, mas reiterou que “nenhum pai gostaria de ver o filho brincando de boneca por influência da escola”.

Renata aproveitou para citar dados sobre crimes de motivação homofóbica cometidos no Brasil. Nessa ocasião, ele tentou mostrar o chamado “kit gay” às câmeras e foi duramente repreendido pela dupla, já que, de acordo com as regras dessas sabatinas, não é permitido levar nenhum tipo de material externo à bancada.

No último momento da entrevista, o assunto migrou para a segurança pública. Bolsonaro defendeu o armamento dos policiais e da população, reforçou que as autoridades devem combater o crime “com mais força ainda” e, defendendo posições do vice-presidente de sua chapa, o General Hamilton Mourão, citou a “revolução de 1964”.

“Tudo aconteceu dentro da lei. Dentro da Constituição da época. Os militares chegaram lá porque foram eleitos. Ele [Mourão] teve a coragem de externar isso”, afirmou, sendo alertado por Bonner que o correto, segundo os historiadores, seria “golpe” militar.

“Deixo os historiadores para lá! Eu fico com Roberto Marinho que escreveu em 1974 sobre a Revolução Democrática”, ironizou o candidato, lembrando que a TV Globo, assim como outros veículos de imprensa, apoiou o início do período de ditadura. “Você vai repetir isso? Trouxemos aqui à mesa um candidato. Já houve um editorial sobre isso, o senhor já está informado”, finalizou o jornalista, fazendo referência a um texto publicado pela emissora em que o próprio Marinho assumiu que o “apoio ao golpe militar foi um erro”.

Na última segunda (27), Ciro Gomes foi o sabatinado do JN.