‘Não estamos sugerindo que as pessoas peguem em armas’, diz Wagner Moura sobre ‘Marighella’

  • Por Jovem Pan
  • 15/02/2019 17h44
EFEHumberto Carrão, Wagner Moura e Seu Jorge falaram sobre "Marighella" no Festival de Berlim

O diretor e ator Wagner Moura levou nesta sexta-feira (15) ao Festival de Berlim seu retrato pessoal de Carlos Marighella, um do principais organizadores da luta armada contra a ditadura, no filme “Marighella”. O longa, a estreia de Moura na direção, aborda em mais de duas horas e meia os últimos cinco anos de vida do escritor, político e guerrilheiro, de 1964 até sua violenta morte em uma emboscada em 1969.

“Não estamos sugerindo que as pessoas peguem em armas, mas também não julgamos os que pensaram que era o melhor que se podia fazer”, disse o cineasta em entrevista coletiva.

“O paralelismo entre o golpe de estado de 1964 e o que acontece hoje no Brasil para mim é realmente claro”, comentou Moura. “Marighella, negro, revolucionário, foi assassinado por forças do Estado em 1969 no seu carro e, 50 anos mais tarde, uma vereadora negra morreu da mesma forma nas mãos, provavelmente, de agentes do Estado”, declarou, ao referir-se a Marielle Franco.

“O Estado brasileiro é racista, a violência de 50 anos atrás é a mesma que se emprega hoje contra a população das favelas e a polícia não está treinada para proteger os cidadãos, mas o Estado, e o Estado decide quem são os inimigos”, completou.

Por essas razões, segundo Wagner Moura, a luta e a resistência de 50 anos atrás não é muito diferente da que é necessária hoje no Brasil. “Há um genocídio contra os negros, os indígenas têm as suas terras roubadas e temos um presidente abertamente homofóbico e racista, e o Brasil o elegeu”, lamentou, em referência a Jair Bolsonaro.

Para o ator e cantor Seu Jorge, que encarna Marighella, foi “uma honra”, mas ao mesmo tempo “difícil” interpretar um homem tão “potente”, que “não volta atrás nas suas decisões”, segundo disse. “Não acredito nas armas, acredito na paz, mas às vezes é preciso lutar”, completou.

Na opinião do ator, talvez este filme contribua para que o povo se interesse e estude a história do país, ao mesmo tempo em que ressaltou a necessidade de conservar a democracia. “Se seguimos em uma democracia, continuaremos tendo uma oportunidade de mudança”, afirmou.

Por sua vez, Bruno Gagliasso, que interpreta Lúcio, o homem para o qual todos os métodos são válidos para acabar com Marighella, declarou que seu maior desafio foi encontrar a parte humana desse “monstro” que é seu personagem.

Em um momento especialmente emotivo da entrevista coletiva, Gagliasso destacou que foi difícil para ele atuar com tanto ódio contra Marighella porque sua filha é negra e, por isso, sabe o quão importante é este filme para o seu futuro.

Já para Humberto Carrão, também Humberto no filme, “muita gente no Brasil gosta de Marighella”, mas muitos outros nem lhe conhecem, porque não se fala da revolução negra, mas só da francesa.

“Marighella” se tornou hoje a principal projeção do dia na Berlinale, junto de “Amazing Grace”, depois que o filme chinês “One Second”, de Zhang Yimou, foi excluído no último momento da competição por supostos “problemas técnicos na pós-produção”.

*Com EFE