Possibilidade de “Caso Tifanny” no futebol já preocupa a CBF

  • Por Jovem Pan
  • 08/02/2018 08h30
JF Diorio/Estadão ConteúdoTifanny Abreu, 33 anos, é transexual e disputa a Superliga Feminina de Vôlei. Ela tem 1,92m e 89 kg.

“Eu ando bastante preocupado com essa questão de os atletas transgêneros poderem se inscrever para participar de campeonatos de futebol no Brasil. Eu presido a Comissão de Controle de Doping da CBF e sei que, a qualquer momento, nós teremos a solicitação de inscrição de atletas transgêneros em competições de futebol”.

A declaração é de Fernando Solera, presidente da Comissão de Controle de Doping da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Em entrevista exclusiva a Giovanni Chacon que vai ao ar no próximo Plantão de Domingo, na Rádio Jovem Pan, o médico abriu o jogo: se disse favorável à inclusão de atletas transgêneros em competições esportivas, mas admitiu preocupação com o possível estabelecimento de uma desigualdade que, segundo ele, é “evidente” no Caso Tifanny.

“Nós precisamos contemplar a igualdade no esporte, que é um dos princípios básicos do controle de doping… E, quando nos referimos a igualdade, não estamos falando em deixar de lado os transgêneros. Nós precisamos é chegar a um consenso para que não sejamos injustos com ninguém: nem com os atletas que estão jogando, nem com os transgêneros”, afirmou.

Fernando Solera

Confira, abaixo, tudo o que Fernando Solera disse sobre o assunto:

A qualquer momento um Caso Tifanny pode acontecer no futebol brasileiro

“Eu ando bastante preocupado com essa questão de os atletas transgêneros poderem se inscrever para participar de campeonatos de futebol no Brasil. É evidente que o assunto precisa ser bastante discutido com todas as partes envolvidas. Nós precisamos discutir porque, na questão do controle de doping, buscamos a igualdade, a ética e a saúde dos esportistas. E, quando a atleta Tifanny participa de um campeonato feminino de vôlei, a gente percebe nitidamente que não está se mantendo a igualdade na competição. Nós não podemos segregar, esquecer que os transgêneros têm direito… Inclusive, essa jogadora tem pleno direito de jogar, porque obteve uma autorização do Comitê Olímpico Internacional (COI). Mas e a igualdade para aquelas atletas que estão participando e se sentindo prejudicadas porque a Tifanny tem mais força, reflexo e potência? Nós temos que nos preocupar com isso. Faz mais de um ano que eu comecei a estudar o assunto “transgêneros no esporte”. Eu fiz isso porque presido uma comissão de controle de doping da CBF e sei que, a qualquer momento, nós teremos a solicitação de inscrição de atletas transgêneros em competições de futebol”.

Questão não é se transgênero pode jogar ou não, mas como evitar desigualdade

“O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo está preparando um fórum de debates, e nós vamos participar desse fórum. A peça principal não é estabelecer se um transgênero pode jogar ou não. Eles podem jogar! Isso já está definido legalmente, existe uma deliberação do COI! Mas temos de pensar em uma outra questão, que é garantir a igualdade na competição. Nós não estamos questionando a participação dos transgêneros, mas apenas tentando garantir que, em todo o mundo do esporte, exista igualdade na competição”.

Tifanny no vôlei feminino é desigual

“As atletas estão se sentindo em situação de desvantagem. E, se existe essa desvantagem, como nós estamos vendo… É evidente! É uma questão biológica, não ideológica! Isso precisa ficar bem claro. A formação biológica masculina oferece mais força a um ser-humano. Como você mede o desempenho de um atleta? Pela sua potência. E potência é o resultado de uma fórmula matemática que multiplica a força pela velocidade. Então, não há como fecharmos os olhos e dizer que não existe essa diferença de potência! Se fizermos um estudo sobre a velocidade da bola em todos os esportes, sempre a velocidade da bola masculina será maior que a feminina. Então, há uma desigualdade instalada. Não há uma ilegalidade, e é importante que se diga isso: ela está jogando de acordo com o regulamento… Mas existe uma desigualdade! Como a gente vai chegar a um denominador comum é que é o desafio. Mas nós vamos trabalhar para que isso aconteça”.

Evitar injustiças é a chave para coibir o preconceito

“Já faz mais de um ano que eu comecei a discutir essa questão dos transgêneros com vários atletas, pessoas ligadas ao esporte e ao movimento LGBT. Fiz isso para que pudéssemos entender e não cometer nenhuma injustiça nem com os atletas transgêneros, nem com os atletas não-transgêneros. Essa é a questão-chave do problema. Ninguém pode sair lesado. Eu tenho opiniões das mais esdrúxulas às mais técnicas possíveis. Há uma mobilização entre os médicos que atuam no esporte para que possamos equacionar a questão. E equacionar a questão significa deixar satisfeitos todos os atletas, sejam eles transgêneros ou não. Nós devemos, sim, sentar à mesa, discutir e elaborar uma nova perspectiva para que os transgêneros possam participar das partidas e não sejam alvos de gozações e ofensas, que é o que, infelizmente, está acontecendo com a Tifanny”.

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