“Eu não faria diferente a negociação da Arena Corinthians”, diz Rosenberg

  • Por Estadão Conteúdo
  • 14/03/2018 09h28
ReproduçãoLuiz Paulo Rosenberg é o gerente de marketing do Corinthians

Luiz Paulo Rosenberg voltou ao Corinthians como gerente de marketing para encerrar um ciclo que se iniciou em 2008, quando chegou a um clube rebaixado no Campeonato Brasileiro e que conseguiu uma recuperação que culminou com o título mundial em 2012.

Desta vez, no entanto, os desafios são bem diferentes, e o principal deles é o pagamento da Arena Corinthians. O Estado conversou com o dirigente e ele garantiu que o estádio ainda vai dar muito dinheiro ao clube.

O que te fez voltar ao Corinthians?

A tentação. É irresistível. Eu trabalho há 50 anos como economista, tentando trazer felicidade para o povo e os sucessos foram limitados, mas os cinco anos que trabalhei no Corinthians antes, trazendo da Série B para campeão mundial, é especial e mudamos o patamar do clube. Vivemos um momento de questionamento em relação a Arena, temos a percepção de que o Corinthians encolheu e a volta do Andrés também me motivou, pois ele te dá condições de trabalhar de uma forma que eu só vi com o Delfim Neto.

Como valorizar a marca Corinthians?

Sei que estou falando com uma nação e não com um bando de corneteiros. Sei também como eles gostam de certas coisas. Uma das coisas mais bacanas que criamos na outra gestão foi a República Popular do Corinthians e vamos resgatar isso. Somos como os catalães. Não tem nada contra a Espanha, mas não é espanhol. Eu sou corintiano, não sou brasileiro. Admito que o Flamengo tem mais torcida. Me dói o coração admitir isso, mas flamenguista não tem essa paixão.

O Corinthians vai conseguir pagar a Arena?

Em toda essa discussão, está se perdendo um aspecto fundamental. Lá (em Itaquera) existem duas arenas, a do Corinthians, valorizada para dar lucro ao clube, e uma arena complementar, que permitiu a abertura da Copa do Mundo em São Paulo. Se você ver nos arquivos do Estado, vai ler que desde o início a gente falava em construir estádio para o Corinthians, mas que a gente faria um sacrifício de receber a Copa. Foi algo patriota, mas tínhamos uma condição: não íamos pagar esse adicional. Foi montada uma equação para que isso acontecesse e as coisas se perderam no meio do caminho.

Mas a dívida continua lá…

Sim e o que estamos fazendo é insistir na volta do que foi acordado, aquele empréstimo do BNDES por meio do ProCopa e que o Corinthians teria direito por receber a Copa, mas não necessariamente a abertura. Vamos discutir um pouco mais esse adicional. Faltou agilidade e maior capacidade de respostas do Corinthians em fazer esse acordo. Vamos honrar o nosso compromisso com seriedade.

Pela sua resposta, a Prefeitura e o Governo não honraram com seus compromissos e deixaram a dívida para o Corinthians. Vai cobrá-los, então?

Há uma série de circunstâncias. Há fatores que não estavam considerados inicialmente, você lembrou bem. A negociação é algo complexo, que envolve Prefeitura, Governo do Estado, Governo Federal, BNDES, Caixa Econômica Federal, Odebrecht e Corinthians Para botar ordem nesse coreto, é preciso respeito mútuo e vontade de todas as partes para montar esse quebra-cabeça.

Você disse em sacrifício para receber a Copa. Por que aceitou receber o Mundial, então? Sem a Copa, o Corinthians não teria estádio?

O estádio teria saído e seria mais fácil de fazê-lo. O acréscimo que ele sofreu de espaço pela necessidade de ser abertura não gera receita. São corredores mais amplos e área administrativa, por exemplo. Essa preocupação a gente teve. Eu não ia ganhar nada com isso, mas nunca passamos pela cabeça de evadir da responsabilidade.

Por quê?

Lembra que desde o primeiro momento defendemos a abertura da Copa no Morumbi. Como economista, eu não podia admitir que precisava fazer um outro estádio existindo o Morumbi. Era só dar uma modernizada e pronto, mas foi fraqueza do Governo não bater o pé. Eles deveriam dizer: ‘se a Copa não for no Morumbi, não tem abertura em São Paulo e não tem Copa no Brasil, oras’. Mas não. Parecia que o dia que o Mundial fosse disputado no Brasil, a gente ia passar para a liga dos países desenvolvidos. Mas decidimos assumir esse compromisso (receber a Copa) sem discutir.

Pode explicar como, de fato, é feito o pagamento da Arena?

Quem fez a montagem e adequação financeira certamente foi eu. Basicamente é uma estrutura de colocar no fundo. Já que é investimento com dinheiro público e levaria 12 anos para pagar, não tinha cabimento a gente usar dinheiro do Corinthians na Arena. Criamos um fundo para proteger o patrimônio do clube e nessa estrutura de fundo, é muito bonitinho como funciona. A Caixa colocou o dinheiro lá através de cotas. Ela ganhou cotas no fundo e cada cota é uma prestação do Corinthians. O clube deu a concessão do terreno e autorização do uso da marca. Qual é a jogada? O Corinthians tem que a cada mês pagar a Caixa, que paga o BNDES. Funcionando tudo normalmente, o Corinthians comprou todas as contas, é dono de todo o fundo e pronto. Esse é o modelo. E as receitas da arena vão para o fundo que serve para acumular o dinheiro e comprar essas cotas. É tudo muito transparente.

Não daria para fazer um negócio melhor? O Corinthians vai ficar sem a renda do estádio por muitos anos…

Mas uma negociação tem que ser justa. É como se você chegasse na concessionária, comprasse um carro e depois ia reclamar que queria dinheiro para a gasolina e para gastar na balada, com as meninas. Eu não faria diferente a negociação. Não deixei entrar dinheiro do patrocínio da camisa e nem receitas do Corinthians. Criei um fundo para a Arena, e é justo que o que ela gerar de receita, vá para pagá-la. E quando a Arena decolar, passar essa crise, pago o financiamento e ainda sobra dinheiro.

Os R$ 300 milhões que vocês pediam de ‘naming Rights’ é utopia hoje, não? Quanto vocês querem?

O que tem é o seguinte. Um bom momento para fazer grandes negócios é quando você está saindo da crise e vislumbrando a luz no fim do túnel, que é o que acontece agora. O empresário que estava recolhido, ele se assanha. Nos últimos dias, a gente teve uns cinco grandes contatos com empresas interessadas em falar do assunto.

Cinco contatos por Naming right? Pode falar mais sobre isso?

Não tem nada, calma. E nem vou estipular prazo, como o Andrés fez tantas vezes, para não ser cobrado depois. É uma negociação complicada, mas o interesse das empresas mostra que é algo que devemos tratar como prioridade.

Uma das ideias para quitar a dívida é aumentar o prazo para pagamento?

Não tem uma ideia principal neste momento. São pequenas coisas e algo que pode ser benéfico é que todo mundo passa por dificuldades. Vamos sentar e discutir uma forma de que todos consigam honrar seus compromissos, sem calote, sem briga.

Qual a principal diferença entre Arena Corinthians e Allianz Parque, os dois estádios mais modernos do Estado?

Existem duas diferenças principais. A primeira é que uma das grandes mágoas do corintiano era não ter estádio. A gente teve a Fazendinha, mas virou coisa retrógrada e sentíamos a necessidade de ter o estádio. É a nossa Brasília, a capital. O Corinthians nunca trabalhou com modelo de ser inquilino, queria ser dono. Já o Palmeiras sempre teve estádio. Para eles, sair de um modelo para que o proprietário tenha como grosso de receita a realização de shows e que o futebol é algo complementar, para eles faz sentido. Daí já tem uma divisão. E acho que não tem certo ou errado. Cada um tem seus traumas. Se for analisar o local do estádio, nós estamos em uma região que o metro quadrado é mais barato e isso nos permite ser mais espaçosos. Neste ponto, a visão é brutal. Entre a monumentalidade do estádio do Corinthians e o aperto que é a arena do Palmeiras, a diferença é muito clara.

A Odebrecht alega que o estádio saiu mais caro que o projetado, porque você resolveu encarecer com vidros importados, colocando mármore até em escadas, Tvs no banheiro, painéis de LED, entre outras coisas. Precisava de tudo isso?

Precisava e explico o motivo. A Odebrecht entende de relacionamento entre empreiteira e governo. Do que precisa ter um estádio para agradar uma multinacional é algo diferente e fizemos pesquisas sobre isso. A própria concepção do estádio reconhece que existem várias classes de renda entre os corintianos. Tenho o Setor Norte que foi modelado para receber as organizadas e não tem acento. No outro lado, onde ficaria aos visitantes, fizemos algo diferente. No Leste é classe média, tem conforto, mas não tem camarote. E o Oeste é a parte para clientes corporativos, empresas que querem fazer do jogo uma experiência única. Eu não estou jogando dinheiro fora. Então os estádios americanos jogaram dinheiro fora quando fizeram seus estádios modernos? Isso você recupera no preço do camarote. Ela (Odebrecht) tem razão quanto aos vidros. Quando ela me trouxe a fachada do estádio, vi que o vidro era verde. Ela disse que todo vidro produzido no Brasil é verde. Tudo bem, então vai buscar o vidro no inferno, mas não vou, depois de 100 anos, fazer uma fachada do estádio do Corinthians em verde. Isso encareceu mesmo, pois foram buscar o vidro na Bélgica. Em compensação, peguei itens do orçamento que a Odebrecht fez e o nosso arquiteto dizia que estava inflado e falei que aqueles itens nós que íamos aprovar e o que consegui de desconto foi maior do que o gasto extra com o vidro. Fiz uma troca, se é ofensivo para o corintiano, eu pago mais. O que é ofensivo para o meu bolso, eu pago menos.

Você fala muito sobre marketing agressivo? O que seria isso na prática?

Te dou um exemplo. Esses dias, fui em uma grande incorporação. Eu não chamei ninguém no meu escritório ou no Corinthians, eu fui lá e disse: ‘Estudei a natureza da sua empresa, a gente acha que pode te ajudar a aumentar o faturamento’. Falei coisas para eles que foram surpreendentes e de extremo agrado. A gente se junta com a empresa e faz um projeto legal para ela investir em nós. É algo que uma agência de propaganda criaria uma fortuna. O normal do clube é ficar sentado esperando. Nós vamos para o ataque. Vê um potencial investidor e vai até ele. É aquela alma corintiana, de ter prazer em fazer acontecer. Dessa vez não tem oba-oba, o que tem é muito empenho e preocupação. Ninguém está soltando rojão aqui.

Corinthians sem patrocínio master por tanto tempo é por falta de ‘fazer acontecer’?

Sem dúvida. Na verdade, quando eu procuro um patrocinador, vou com o peito aberto. Não sei se vou vender um camarote, um pedaço da camisa, patrocínio master ou naming rights. A prioridade zero é o patrocínio master, pois é o que me dá receita a curto prazo. Todo mundo sabe o que é e é só mostrar a estatística que a empresa fica louca.

Sua passagem anterior ficou marcada pelo Ronaldo. Pode chegar um novo astro?

Sendo honesto, o meu peso na vinda do Ronaldo foi zero. O Andres não fala com a gente sobre isso. Ele só disse: ‘vai lá e consegue o dinheiro para pagar o Ronaldo’. Se ele fizer isso, a gente vai atrás. Eu chegar e falar que preciso de um craque, vou estar mentindo. A gente não precisa dessas coisas para atrair torcida. Isso é mais coisa para a Vila Sônia. Nosso craque é a Fiel. Fazendo o que ela espera, ela não precisa de craque, mas é claro que se chegar um craque, facilita. O Ronaldo acelerou em cinco anos o que levaríamos dez para conseguir.