Felipão mantém essência aos 70 anos, mas impressiona amigos pela motivação no Palmeiras

  • Por Allan Brito/ Jovem Pan
  • 09/11/2018 10h04
Palmeiras/ DivulgaçãoFelipão compara o elenco atual do Palmeiras com o time campeão da Copa Libertadores de 1999

O futebol é polarizado e maniqueísta por natureza. Ou seja, todos sempre tentam identificar o bem e o mal. Querem apontar o certo e o errado. Buscam o herói e o vilão. E a maioria das pessoas passa pelo esporte com apenas um desses rótulos. Mas Luiz Felipe Scolari é diferente. Ele já foi o certo, o bom, o mair herói de um país. E também já foi o mais errado, o pior vilão possível. Hoje é visto com desconfiança e ressalvas por muitos. E no meio de tantas reviravoltas, ele completa 70 anos nesta sexta-feira (9). E apesar de manter sempre a mesma essência, de acordo com amigos, ele vive uma novidade especial: a alta motivação gerada pelo trabalho que desempenha no Palmeiras.

Essa essência de Felipão é vista de duas formas diferentes. Para quem não o conhece de perto, parece ser um técnico sério, sisudo, rígido e até bravo demais. Isso fica claro rapidamente, em poucas imagens e declarações. E quem o conhece, não nega essas características. Mas acrescenta que ele também é brincalhão, divertido e um ótimo amigo. Faz sentido. Afinal, as personalidades dos seres humanos também não são polarizadas.

Quando estava iniciando a carreira de técnico, Felipão virou amigo do padre Pedro Bauer em Criciúma. O religioso chegou a dar palestra para jogadores treinados pelo técnico. Atualmente eles continuam se falando com frequência e nada mudou: “Não vejo diferença no Felipão de hoje em dia. Ele é bem sério quando tem que ser, mas aos poucos a gente vai conhecendo o lado brincalhão também”.

Acaz Felleger, que trabalha com ele desde a década de 90, confirma essa personalidade divertida de Felipão: “Ele gosta de fazer arte. Na mesa, por exemplo, ele coloca sal no seu suco. Ele esconde o prato. Sempre foi assim”. E Acaz destaca outra característica importante do treinador, que apareceu quando o Palmeiras tentava organizar o trabalho da imprensa na década de 90: “Os jornalistas não gostavam. Ele veio me perguntar por que eu estava fazendo aquilo. Eu disse que estava precisando, por causa da quantidade de repórteres aumentando, e precisava do apoio de todos. O Felipão disse que ia me ajudar. E quando a Parmalat saiu do Palmeiras, eu ia ficar desempregado. Ele me disse ‘você não vai para lugar nenhum porque brigou com todo mundo’. E ele me chamou para ser o assessor dele. E vieram 8 jogadores juntos. Isso é lealdade”.

O ex-zagueiro Roque Jr. também experimentou essa lealdade de Felipão. Ele se destacou no Palmeiras com o técnico e depois foi levado até a Copa do Mundo de 2002. Foram campeões do mundo, ficaram próximos e são amigos até hoje. E as memórias dessa amizade também passam por momentos engraçados: “Lembro dele gozando o Murtosa e o Paulo Paixão. Eles tinham uma relação de muito tempo e estavam sempre de bom humor”, destacou o hoje dirigente da Ferroviária, citando auxiliares anteriores de Felipão.

Essa personalidade virou um ponto forte para Felipão no futebol. A mistura de seriedade e brincadeiras costuma gerar uma confiança importante para os jogadores: “A gestão de pessoas é o ponto forte dele. No futebol você tem pessoas muito diferentes, que precisam seguir o mesmo caminho. E isso é muito difícil. Sem gestão você não vence”, decretou Roque Jr.

Mudanças

É possível manter a mesma essência durante 70 anos. Mas é inevitável passar por algumas mudanças. E a revolução mais recente na vida de de Felipão aconteceu por causa do Palmeiras. Ele não esperava treinar um time brasileiro neste momento. Recebeu sondagens e propostas para treinar diversas seleções, como Egito, Coreia do Sul e Paraguai. Antes da decisão final, surgiu a proposta empolgante do Verdão.

“Agora ele está super feliz no Palmeiras. Ele nem imaginava dirigir um clube no Brasil agora, mas está super motivado. Até me falou pessoalmente que esse elenco é tal qual aquele que ele teve de 97 a 2000 no Palmeiras, porque é uma turma muito unida e querendo ganhar títulos”, revela o padre Pedro Bauer.

Felipão está perto de conquistar um título inédito, pois nunca venceu um campeonato por pontos corridos no Brasil. No momento o Palmeiras é líder e deixa o técnico otimista, segundo o padre: “Ele está confiante porque é amigo desse pessoal. Não tem encrenca no vestiário”. E Acaz confirma essa empolgação: “Eu vejo isso e peço a Deus para chegar aos 70 anos com esse pique, essa saúde, essa vontade e essa sede de vencer do Felipão”.

Para voltar a vencer, Felipão também precisou mudar a forma como prepara os times. Ofensivamente, o Palmeiras ainda não mostrou evoluções modernas, provavelmente porque não houve muito tempo para treinos. Mas defensivamente a equipe está diferente, mais organizada, com um sistema que tem funcionado muito bem no Campeonato Brasileiro.

Outro jogador que foi treinado por Felipão, o hoje técnico Arce, reforçou recentemente que o mérito do técnico não é qualquer inovação tática. Mas sim uma superação pessoal: “Acho que ele não mudou muito. Mas ele se reinventou a cada dificuldade, especialmente após a Copa do Mundo, em 2014. Ele teve a força e o espírito para recomeçar depois de ter feito praticamente toda a carreira”, afirmou ele, lembrando da derrota por 7 a 1 para Alemanha.

De fato Felipão sofreu bastante com o baque da Copa, segundo relato do padre Pedro: “Quando  liguei para o Felipão, ele chorou, perguntando se eu ainda era amigo dele. Eu disse ‘claro, você é um vencedor, tem uma história, tem tantos títulos’. Ele tem um sofrimento quando tentam apagar tudo que ele fez. Veio toda crítica por causa de um resultado catastrófico, mas não tem que ficar só com aquilo. A vida não é só aquilo”.

Exato, padre: Seja no futebol ou na vida, sempre existe mais de um lado. Tem momentos de brincadeira e de seriedade. Tem momentos de herói e de vilão. Tem momentos de vexames e de títulos. Os 70 anos de Felipão superam qualquer barreira da polarização.