Bob Burnquist se anima com Tóquio 2020: ‘A gente vai infectar a Olimpíada’

  • Por Jovem Pan
  • 16/01/2019 09h02
Bob Burnquist/ DivulgaçãoBob Burnquist acredita que o skate terá maior aceitação com a Olimpíada

Bob Burnquist já foi um dos melhores praticantes de skate no Brasil, mas atualmente a principal função dele é outra. Ele virou presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSK) e prepara o país para disputar a Olimpíada de 2020. O novo dirigente está empolgado, principalmente pela possibilidade de mostrar uma cultura diferente no meio esportivo. Ele acredita que a filosofia do skate vai “infectar” a competição olímpica.

Para Bob, a divulgação da cultura skatista será o grande benefício: “Quantas vezes que eu estou competindo com o Bucky (Lasek, norte-americano), e eu dando conselho pra ele ganhar de mim! Mas é porque eu quero ver ele acertar, e a gente faz isso todo dia. Por que na competição eu vou ser diferente? Então a gente tem isso e eu falo muito pra galera, pros brasileiros: ‘Medalha? Maravilha, beleza, é uma consequência maravilhosa. Mas, em primeiro lugar, vamos mostrar quem somos’. Nós somos unidos, somos felizes, andamos de skate deste jeito, temos nossa atitude. Eu quero isso, mais do que a medalha. A medalha é consequência. O que a gente vai passar vai ser muito maior do que uma medalha. A gente vai infectar a Olimpíada, não o contrário”.

O presidente da CBSK diz ainda não temer eventuais problemas de doping por uso de maconha – ele próprio é defensor da erva, principalmente para fins medicinais. “É uma substância extremamente positiva para lidar com dor, muito melhor até que opióides. É uma coisa que é um pouco tabu de se conversar, mas é a realidade.”

Na próxima semana ele estará em Florianópolis para inaugurar a pista de skate que foi reformada pela plataforma BV Esportes e que faz parte de seu projeto de ampliar a prática da modalidade pelo País.

Como avalia o momento do skate brasileiro?

É um momento olímpico, e a realidade de grande evento é esse, mas o skate continua crescendo e se desenvolvendo. Por ser olímpico a gente teve um ano muito bom com o Circuito Brasileiro, com a Lei Agnelo-Piva, com a representatividade do COB. Isso foi um grande passo pra gente colocar o circuito das modalidades olímpicas em pé. A gente se firmou, foi um ano maravilhoso para isso, e agora a gente está preparado. Tivemos até um ano de seleção brasileira, coisa que a gente não tinha antes, e a gente vai agora para o segundo ano. No momento que a gente pode dar um suporte pra molecada de viagem, seguro saúde, médico… Coisas que eu nunca tive, e consegui chegar onde cheguei, poder fazer isso agora pro skate. É um momento diferente, novo, e de muito suporte. Agora, é um momento que a gente está construindo, conhecendo. É um mundo novo. Nessa história toda entra regras diferentes, que a galera não está acostumada, entra o doping, entra pontuação olímpica, realidade de eventos diferentes, equipes. Apesar de eu ser brasileiro e sempre competir como brasileiro e com os brasileiros, a gente nunca necessariamente era um grupo. Hoje em dia com uma seleção é interessante e um momento de oportunidade.

Imaginou que o skate um dia se tornaria esporte olímpico?

Nunca imaginei e nem sonhei com isso. A gente tinha a nossa realidade, e o skate é muito contracultura, sempre foi. Eu gostava do skate justamente pela rebeldia dele, e o fato de a gente poder fazer o que… Acaba criando tendência, você fica sempre à frente e na contramão. Acho que é possível viver esse momento sem perder a identidade. Esse é o grande lance.

Você tem toda uma história no skate, mas só agora ele entrou no programa dos Jogos. Tem alguma “inveja” por não poder disputar?

Não necessariamente. Eu vou estar ali com eles, mas eu venho de um mundo, de uma fase, de uma época em que, por ser uma modalidade que eu nunca competi… O park seria o mais parecido, mas já é outra pegada. Eu fico orgulhoso de estar onde estou para ajudar essa galera a estar lá, e vou estar vivendo isso por eles.

A experiência do skate na Olimpíada é diferente, ele fica restrito a regras, “dentro de uma caixinha”…

Isso aqui (mundial de skate na Arena Carioca) pra mim é uma caixa. A gente está numa caixa. Esse street aqui é de rua, a galera pôs a rua numa caixa e está aqui competindo. Isso aqui não é uma Olimpíada, mas já é um evento de skate. Os grandes eventos sempre foram assim, eu sempre vi os X-Games – que eram a nossa Olimpíada – como uma caixa. A gente tem que se adequar, beleza. Aí, quando estou em casa, sou criativo, aprendo manobra, crio manobra, conteúdo. O skate sobrevive independente de competição, por isso que, se a gente não tivesse Olimpíada, não teria problema. Obviamente que a gente tem uma oportunidade de ajudar a crescer a atividade, construir pistas, ter uma aceitação maior, mas se isso não existisse, a gente tem por onde. Por isso que acho que a gente não perde a identidade, porque você consegue trabalhar o lado caixa, quadrada, e chegar em casa depois e aí e o life style. A diferença do skate para outros esportes é que eu vejo ele muito mais cultura do que esporte, então a gente tem que se achar aí nesse meio.

Como será ter skatistas numa Vila Olímpica? É um ambiente diferente, e a seleção tem alguns atletas muito jovens.

Bom, se esse atleta competiu e garantiu uma vaga, a gente tem que dar o suporte para que tenha a melhor experiência possível. Nesse caso nós temos fenômenos que são jovens, mas que não necessariamente estão classificados para a Olimpíada. Se classificarem, é uma história para a gente entender. No skate, diferente de muitos outros, por ser life style, acho que existe um suporte maior, porque independente de ela estar competindo ou não, ela vai estar andando de skate. Como atividade o skate é muito importante. Eu, quando criança, a melhor coisa que fiz foi andar de skate; eu caía, me machucava, acertava. Aquilo me ensinava que, para eu conseguir, eu tinha que tentar, cair antes de levantar. Às vezes, na vida, o cara toma uma não e parece que é o fim do mundo. Skatista toma um não e ele vai ficar insistindo umas 20 vezes antes de receber um sim. Então, para uma criança é muito bom. Agora, lado competitivo, de esporte, é uma questão de ver como está em volta da criança – às vezes não é nem a criança em si, é quem está em volta.

E como enfrentar a questão do doping? A gente sabe que muitos são adeptos de coisas que a Wada (Agência Mundial Antidoping) não permite…

Sem dar muita volta: a maconha, correto? A maconha não é proibida, ela é proibida no País, é proibida em alguns países, legalizada em outros. É uma substância extremamente positiva para lidar com dor, muito melhor até que opióides. É uma coisa que é um pouco tabu de se conversar, mas é a realidade. Dentro desse jogo olímpico, a gente sabe que dentro de competição ela é proibida, então em competição a posição é de não utilizar. Fora de competição, não é proibido. Dentro da regra da Wada, se eles estiverem checando a galera entre uma competição e outra… Eles não vão nem procurar, porque o THC (Tetrahidrocanabinol) não é proibido nessa hora. É uma questão de a gente acompanhar as regras, e se esse é nosso único problema, é um problema fácil de resolver. Acho que o problema maior, mais difícil de resolver, é a galera que não está acostumada com esse mundo de doping e de repente pega um febre e vai lá e toma uma Neosaldina ou um negócio que não sabe que aquilo é doping, e aí tem uma máscara e cai. O que a gente sabe, sabe. É isso que a gente está educando, muito mais do que o lado da maconha. O lado da maconha, sinceramente, acho que vai mudar, acho que a gente vai começar a observar os benefícios que já estão rolando. Inclusive o CBD (canabidiol) é legal, tanto em competição quanto fora. A cannabis pode estar no seu sistema, tanto em competição quanto fora. O THC, que é o princípio ativo, só pode fora de competição. Então é adequar, informar, educar a galera, porque é um mundo novo. Isso não vai mudar a cultura do skate.

Quais serão os critérios para a classificação a Tóquio 2020?

É uma questão da World Skate, então a gente acompanha. Tem eventos até ano que vem classificatórios, desde nacionais, cinco estrelas, as séries… Os eventos têm peso diferentes.

O skate veio para ficar na Olimpíada?

Vai ser uma experiência que vai dar o que falar, e a galera vai querer de novo. Vai sair do temporário para o permanente.

No skate é comum um competidor aplaudir, se empolgar quando um oponente faz uma manobra diferente. Ele não parece exatamente como um oponente, como é comum na briga por medalhas. Como será isso nos Jogos de Tóquio?

Acho que é justamente isso que faz com que o skate seja interessante e muito diferente. A maioria das pessoas que assiste a um campeonato de skate, que são de fora, essa é uma das primeiras coisas que percebem. Quantas vezes que eu estou competindo com o Bucky (Lasek, norte-americano), e eu dando conselho… pra ele ganhar de mim! Mas é porque eu quero ver ele acertar, e a gente faz isso todo dia. Por que na competição eu vou ser diferente? Então a gente tem isso e eu falo muito pra galera, pros brasileiros: ‘Medalha? Maravilha, beleza, é uma consequência maravilhosa. Mas, em primeiro lugar, vamos mostrar quem somos’. Nós somos unidos, somos felizes, andamos de skate deste jeito, temos nossa atitude. Eu quero isso, mais do que a medalha. A medalha é consequência. O que a gente vai passar vai ser muito maior do que uma medalha. A gente vai infectar a Olimpíada, não o contrário.

Com Estadão Conteúdo