Alckmin reduz gasto para formar professores

  • 13/07/2016 09h18
Sala de aula

A gestão atual do governador Geraldo Alckmin (PSDB) gastou menos com os programas de aperfeiçoamento de professores do Estado. Entre 2012 e 2015, o recurso destinado ao treinamento dos docentes caiu 67,8%. Em 2012, foram destinados aos cursos R$ 86,9 milhões, em valores corrigidos pela inflação do IPCA até dezembro, ante R$ 28,9 milhões em 2015. No mesmo período, o total de gastos (liquidado) de toda a pasta subiu 5,7% – de R$ 28,03 bilhões para R$ 29,6 bilhões.

Com a redução, o número de inscrições também caiu. Eram 104,6 mil professores atendidos, em 2012, ante 77,2 mil em 2015, queda de 26,2%. Em 2013, a rede chegou a ter 198 mil docentes participando de algum tipo de treinamento.

Todas as modalidades de curso perderam alunos. O ensino à distância (EAD), que responde pela maioria das inscrições, também teve queda. Em 2012, eram 73,2 mil vagas, número que avançou para 164,5 mil, em 2013, e 155,9 mil em 2014. Já em 2015, só 47,8 mil inscrições foram feitas. Os dados foram obtidos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação. 

A coordenadora da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado (Efap), Valéria de Souza, admite que a crise econômica afetou o orçamento para os cursos, mas diz que o momento é de readaptação. Cursos que eram semipresenciais passaram a ser EAD, por exemplo. Valéria disse ainda que não faltam vagas e que, em um período de três anos, todos os servidores da rede podem fazer ao menos um curso. 

Um dos programas mais procurados e agora descontinuado no Estado é o Rede São Paulo de Formação de Docente (Redefor), feito em parceria com as três universidades estaduais paulistas, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Entre 2010 e 2012, ao menos 25 mil docentes se inscreveram nos cursos de especialização oferecidos, que vão de aperfeiçoamento no ensino de suas disciplinas à educação inclusiva. Atualmente, só a Unesp ainda mantém um grupo, com aulas semipresenciais para 1 600 estudantes, “a avaliação dos professores que fizeram o curso sempre foi muito boa, mas não foi possível a continuidade”, disse a coordenadora da Redefor na Unesp, Elisa Tomoe Moriya Schlünzen. De acordo com a educadora, professores da rede ainda procuram o programa, “a demanda é de pelo menos 17 mil alunos.” O custo, segundo a gestora, é de R$ 270 mensais por pessoa e a duração do curso é de dois anos. 

Especial

A professora e coordenadora Claudia Anuatti, de 50 anos, fez o curso de educação especial na perspectiva da educação inclusiva e elogia o programa, “ensinam toda a legislação voltada aos alunos com algum tipo de necessidade especial.” Na escola em que trabalha há 20 crianças com algum tipo de deficiência, “o curso foi fundamental. Faço adaptações curriculares e dou orientações aos professores. Faz falta no dia a dia. É uma pena que haja poucas vagas”, diz. A professora também cita que, hoje em dia, não estão mais disponíveis outros cursos, como o de inglês EAD (71 mil inscritos em 2013) e libras (20,3 mil inscritos em 2013).

A professora Regina Lúcia Moura, de 46 anos, entrou na rede estadual, há dois anos, e faz a esçecialização para ingressantes na rede à distância. O curso, diz, fala sobre o currículo do Estado e a forma como o material deve ser usado pelos alunos, “para quem leciona há mais tempo não tem novidade. Mas, para quem está começando, ajuda muito. Se você espera aprender só na faculdade o que fazer na sala de aula, está perdido”.

Interesse

A pesquisa Conselho de Classe feita, em 2015, pela Fundação Lemann com professores de todo o País, mostrou que os programas de formação continuada docente são os mais citados quando questionados sobre o que fazer para melhorar a educação.

Em um universo de 1,9 mil professores, a estratégia é mencionada por 17% dos entrevistados como a principal medida, seguida por aumento no piso salarial (14%) e melhoria na carreira (10%).

O levantamento aponta ainda que, no último ano, sete em cada dez professores participaram de algum programa de formação, mas só menos da metade dos entrevistados teve o valor do curso custeado pelos governos. 

Para o economista Ernesto Martins Faria, coordenador de Projetos da Fundação Lemann, uma das maiores preocupações do professor é entender como ele realmente pode garantir a aprendizagem dos alunos, “o profissional acaba vendo a formação complementar como algo importante para ficar mais seguro do que está quando sai da faculdade”.

Uma das maiores dificuldades nessa área, diz o pesquisador, é superar as lacunas dos cursos de licenciatura, que, em muitos casos, têm pouco diálogo com a prática na sala de aula, “o professor alfabetizador, por exemplo, conheceu a teoria, mas não aprendeu como lidar com as crianças na pedagogia. Falta conhecimento de gestão de sala de aula. Os cursos de licenciatura poderiam ser mais práticos e trazer mais clareza quanto aos desafios que o professor vai enfrentar em sua profissão”, diz.

Defesa

Valéria de Souza, coordenadora da EFAP, diz que adaptações garantem que, ao longo de três anos, todo professor possa fazer ao menos um curso, “fazemos uma boa limonada com o limão que temos”, compara. 

A profissional destacou que, com a diminuição nos recursos, a escola tem adaptado cursos já existentes nas modalidades presencial e semipresencial para serem totalmente à distância. Outra alternativa é retirar os tutores dos cursos EAD, “a ideia é potencializar o atendimento, independentemente do cenário econômico e político”, referiu. 

De acordo com Valéria, a redução no número de vagas é “sazonal” e muda segundo as demandas de cada ano, “quando há contratação de professores, por exemplo, há o curso de ingressante. Neste ano, 27 mil profissionais estão fazendo o curso como ingressantes de disciplinas de ensino fundamental 2 e médio. É uma demanda que, se sobe, tem de se atender”.

Por fim, a gestora disse ainda que o curso de inglês, que foi cortado, era uma aposta para a Copa do Mundo pela alta demanda dos professores, mas que agora é oferecido só aos professores do próprio idioma. Também há, segundo ela, maior fiscalização sobre a qualidade dos cursos, “fazemos um levantamento para ver quais valem a pena. Estamos focando os que têm a ver com o currículo e a gestão em sala de aula. Tem de haver uma priorização.”