Com João Doria prefeito, o que o futuro reserva para o PSDB?

  • Por Fernando Ciupka/Jovem Pan
  • 02/10/2016 04h07
Geraldo Alckmin e João Doria Junior

O candidato João Doria (PSDB) surpreendeu nas eleições municipais de São Paulo. Pela primeira vez concorrendo em uma eleição, o tucano, bancado pelo atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, enfrentou rejeição dentro do partido, mas calou quem foi contra sua candidatura, vencendo no primeiro turno o pleito para a Prefeitura da capital paulista.

Para o doutor em Filosofia e mestre em Ciências Políticas pela UFRGS, Fernando Schüler, o surgimento de João Doria no PSDB é saudável para o partido após anos de alternância entre Geraldo Alckmin e José Serra nas candidaturas tucanas em São Paulo. Segundo ele, o empresário conseguiu romper uma “oligarquização” dentro do PSDB, mas existe uma dificuldade em aceitar um nome novo.

“A sociedade clama por renovação. Nós gostaríamos que bons profissionais, empresários de sucesso, bons gestores viessem para a política. Quando surge um empresário, que obviamente vai ser contestado, especialmente quando entra na política, aí há toda uma reação. Há todo um conservadorismo, digamos assim, da corporação política com dificuldade em aceitar um nome novo. Com novas ideias, com novo perfil, que rompa estruturas de poder já antigas. Eu acho que há um certo corporativismo no mundo político”, explicou Schüler.

De acordo com o também doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Humberto Dantas, muito da rejeição a Doria dentro do ninho tucano vem do fato de ele ser um “poste” de Geraldo Alckmin. 

“É um estreante bancado por um político de peso. Então, é um poste. E isso irrita o partido por dentro porque tinha muita gente se preparando para isso já há um tempo. Figuras como Andrea Matarazzo, que já havia se inscrito na prévia de 2012 e depois retirou o nome em favor do Serra, Tripoli e outros não gostaram da presença de Doria nesse processo, bancado fortemente pelo governador”, diz Dantas.

Fortalecimento de Alckmin

Com a vitória de Doria para a Prefeitura de São Paulo, muito se fala na força que tal resultado proporciona ao atual governador de São Paulo, que o apoia. Na opinião de Schüler, o êxito do empresário nas eleições municipais de 2016 credencia Alckmin como o principal nome tucano para concorrer à Presidência da República.

“Alckmin sai muito fortalecido com a vitória do João Doria. O governador passou por dificuldades na primeira fase do governo, na questão da crise na educação, mas acho que ele recupera esse espaço. Ele surge como o principal aspirante à Presidência dentro do PSDB. Uma vitória muito significativa. Evidentemente que o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves pode ter também uma vitória muito expressiva com João Leite em Belo Horizonte (o tucano foi para o segundo turno com Alexandre Kalil, do PHS). Então são dois candidatos importantes”, disse o cientista político, que ainda colocou o ministro José Serra como um terceiro nome na disputa tucana.

Dantas também considera que Alckmin pode buscar ser o candidato do PSDB no pleito presidencial em 2018, mas acha que o governador de São Paulo criou um problema dentro do partido. Além de enfrentar resistências de outros nomes de peso no PSDB.

“Com as lideranças mais tradicionais do Estado, ele criou um problema. Ele escreveu mais um capítulo nos conflitos internos dentro da legenda. Com José Serra, com Fernando Henrique, que entrou a contragosto na campanha de Doria, ou pelo menos não entrou tão entusiasmado quanto poderia ter entrado. Enfim, acho que ele tem um problema com as principais lideranças do próprio Estado dele. Segundo ponto: ele enfrentará resistência de Aécio Neves”, contou Dantas.

O PSDB em 2018

Após a eleição de João Doria no primeiro turno na cidade de São Paulo, o PSDB pode chegar com bastante força em 2018, tendo grande parte do eleitorado do principal colégio eleitoral do país, com o poder do governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo. Segundo Dantas, contudo, não somente o PSDB, como todos os partidos com nomes fortes e importantes precisam prestar atenção nas ações da Justiça no Brasil até 2018. 

“O ativismo da Justiça é algo com que todos os partidos tradicionais terão de se preocupar. O PSDB tem ainda uma segunda preocupação. Ele faz parte da base do governo Temer. E aí vem a grande pergunta: como esse governo chega até 2018?”

Segundo Dantas, o cenário é de profunda incerteza. “Quem disser que vai ser deste ou daquele jeito ou é torcedor ou é vidente. Eu não torço e nem tenho bola de cristal. Por isso acredito que o PSDB está caminhando numa linha delicada. Se o governo for visto como ruim em 2018, o PSDB é parte desse governo. Se o governo for visto como bom ou o país estiver em um caminho melhor, o PSDB vai ter de convencer o governo e sociedade de que ele tem os melhores candidatos, seja para herdar o Planalto seja para servir de alternativa”, completou o cientista político.

Schüler enxerga o PSDB bem forte para o pleito de 2018, com uma vitória do partido na capital paulista e em Belo Horizonte. Mas não considera os tucanos favoritos, já que eles enfrentam um sério problema interno.

“O PSDB sai fortalecido com a vitória em São Paulo e com um eventual êxito em Belo Horizonte. Não quer dizer que o PSDB é favorito. O PSDB tem um problema interno muito sério: tem três candidaturas viáveis. Isso é um problema. Às vezes ter excesso é um problema. O PSDB precisa, primeiro, acho que um pouquinho mais de firmeza programática. Precisa se caracterizar melhor, fazer um balanço da sua atividade, um pouco dúbia nos últimos dois anos. O PSDB teve muita dificuldade de liderar a oposição desde a eleição da presidente Dilma. E, a partir daí, precisa resolver seu problema interno. Resolvendo o problema interno, na minha visão, é um partido que entra com muita força no processo eleitoral de 2018”, diz Schüler.