Cultos, Whatsapp e conservadorismo movem a “bancada da Bíblia”

  • Por Estadão Conteúdo
  • 12/08/2018 15h34
Saulo Cruz/Agência CâmaraParlamentares evangélicos em momento de oração na Câmara

Eduardo Cunha, fiel da Assembleia de Deus e então presidente da Câmara dos Deputados, retardava o início dos trabalhos no plenário da Casa naquele 24 de setembro de 2015. Comprava tempo para que uma comissão especial concluísse a votação do Estatuto da Família. Apresentado por um deputado evangélico, o projeto que define a família como entidade formada pela união de um homem com uma mulher passou por 17 votos. Doze deles vieram de parlamentares evangélicos.

A aprovação mostrava, logo no início da nova legislatura, que o grupo estava unido na defesa de seus interesses. Mostrava também o esforço dos deputados evangélicos de manter – e quiçá aumentar – o poder político alcançado nos quatro anos anteriores, quando ocuparam a Comissão de Direitos Humanos com o pastor Marco Feliciano (Podemos-SP). Para esses deputados, Deus tem poder. A bancada evangélica precisa ter também.

A quarta reportagem da série Os donos do Congresso mostra que o grupo é uma força em ascensão no Congresso Nacional. A cada legislatura, cresce em tamanho, capacidade de organização e influência. Levantamento do Estadão/Broadcast indicou que a bancada é composta por pelo menos 84 parlamentares: 82 deputados e dois senadores. É mais que o dobro do número de congressistas evangélicos que se elegeram em 2006, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o Diap.

Esses parlamentares estão organizados na Frente Parlamentar Evangélica (FPE). Oficialmente, há 182 integrantes em exercício em sua lista. No entanto, 105 deputados seguem outras religiões. Lá entraram com suas assinaturas somente para viabilizar a criação da frente, anabolizando a representação parlamentar evangélica.

Para chegar à formação da bancada atual – com a entrada de suplentes, por exemplo -, o Estadão/Broadcast procurou cada congressista da lista original na FPE, além de parlamentares indicados pela Frente e que têm atuação próxima ao grupo.

Os 84 parlamentares representam 23 Estados, 21 legendas e 19 denominações evangélicas. Uma vez no Congresso, porém, para boa parte deles as diferenças regionais e partidárias são esquecidas em prol da união em torno de pautas morais.

Costumes

Votações que marcaram a legislatura, como o impeachment de Dilma Rousseff ou a PEC do teto de gastos, não entraram nas conversas da bancada. Não se trata de um grupo homogêneo. O que os une é a defesa dos valores cristãos e da família. Organizam-se para aprovar projetos favoráveis a essa plataforma e, especialmente, para barrar projetos desfavoráveis a ela. Ali não persevera o debate econômico. Em torno dos temas morais, há prioridades claras: impedir a realização de abortos, o debate sobre identidade de gênero nas escolas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a liberação dos jogos de azar, a legalização das drogas.

Dentro desse roteiro, a aprovação da PEC 181 é celebrada como uma das principais vitórias dos evangélicos na atual legislatura. Originalmente, ela propunha ampliar o tempo de licença-maternidade em caso de parto prematuro. No meio do caminho legislativo, foi desfigurada por um deputado evangélico e passou a incluir a ideia da “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção”, abrindo caminho para tornar ilegal todo tipo de aborto – hoje permitido em casos como de estupro e de risco para a mãe.

Em 2017, a “PEC da Vida” foi aprovada na comissão, resultado celebrado aos gritos de “Vida sim! Aborto não!” pela bancada evangélica. Graças às manobras do grupo, uma proposta progressista tornou-se projeto conservador de alto impacto e com chances de prosperar na Casa.

Tanto o Estatuto da Família quanto a PEC 181 aguardam votação no plenário da Câmara e, para virar lei, ainda precisam passar pelo Senado. Há, portanto, um longo caminho até lá. Mas são vitórias políticas expressivas para um grupo que, até outro dia, lograva, no máximo, impedir a vitória dos outros.

Para emplacar os projetos, a atuação da bancada foi decisiva. Os evangélicos inscreveram-se em peso nas comissões – na PEC 181 chegaram a ter quase metade das vagas. “Não é no grito que vamos conseguir o que queremos, é no voto. Daí a importância de estarmos organizados. Não podemos comer mosca”, diz Leonardo Quintão (MDB-MG), que é presbiteriano. Ele avalia que o grupo foi aprendendo a operar na Casa. O uso das comissões é um exemplo. Hoje, os 82 deputados evangélicos estão distribuídos em 159 das 184 comissões permanentes e temporárias da Casa, segundo levantamento do Estadão/Broadcast.

A comissão da PEC 200, que pretende isentar do pagamento de IPTU templos alugados, é a com maior número de integrantes da bancada: 17 dos 21. Entre as permanentes, a de Ciência e Tecnologia e a Constituição e Justiça são as que mais concentram evangélicos. “A esquerda milita. Entendemos que precisávamos de um grupo para militar também”, diz o pastor Hidekazu Takayama (PSC-PR), presidente da FPE.

“Valores cristãos”

Na bancada evangélica, a ordem é clara: detectar e atuar para bloquear iniciativas que possam afrontar o ideário conservador. Nos cálculos da Frente Parlamentar Evangélica (FPE), há mais de 300 projetos em tramitação hoje na Câmara que ameaçam frontalmente os valores defendidos pelos evangélicos.

“O segmento se organizou e agora está muito bem representado. Há uma lista com os números dos projetos que são nocivos. Temos uma torre de vigia preparada para atuar”, afirma a deputada Tia Eron (PRB-BA), que chegou ao Congresso egressa dos quadros da Igreja Universal do Reino de Deus.

Para garantir a articulação, os evangélicos fazem reuniões às terças na Câmara. O quórum nem sempre é alto, mas há os cultos. Realizados às quartas pela manhã num dos plenários da Casa, eles atraem um público fiel. Após o louvor, é comum que os deputados despachem sobre temas de interesse. O que funciona mesmo, porém, é o WhatsApp. É lá que, a qualquer hora de qualquer dia, surgem avisos e lembretes de votações para os quase 160 integrantes do chat “FP Evangélica”.

No núcleo duro da articulação, ao lado do presidente Hidekazu Takayama, estão nomes como Marco Feliciano (Podemos-SP), João Campos (PRB-GO) e Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). Mas a FPE diz contar com mais de 70 deputados firmes na causa evangélica.

Sozinhos, os ativistas evangélicos são somente 16% da Câmara. Para vencer, portanto, a bancada precisa de aliados. Há sintonia fina com as frentes “Católica Apostólica Romana” e “Em Defesa da Família e Apoio à Vida” – não por acaso é grande o número de católicos na composição oficial da FPE. Juntos, formam a “bancada da Bíblia”.

As lideranças das frentes estão em constante contato e há afinidade em temas centrais, como a defesa de posição contra o aborto. A atuação espraia-se pela Esplanada. Há monitoramento e intensa pressão sobre o Executivo. Em 2017, num dos mais rumorosos episódios de atuação da bancada da Bíblia, os presidentes das frentes Evangélica, Católica e da Família marcharam juntos ao Palácio do Planalto para exigir alterações na base nacional curricular. Estavam contrariados com a inclusão do conceito de respeito à identidade de gênero e orientação sexual. Pouco depois, o Ministério da Educação de Michel Temer divulgou novo texto, suprimindo qualquer menção ao tema.

A articulação dos evangélicos estende-se ainda a outros grupos conservadores, como os das chamadas bancadas do boi (Frente Parlamentar Agropecuária) e da bala (Frente Parlamentar da Segurança Pública). “A bancada ‘BBB’ – boi, bíblia e bala – funciona de verdade. A gente conversa, se protege”, afirma Sóstenes Cavalcante, membro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que em seu primeiro mandato se tornou uma das vozes mais influentes da bancada evangélica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. Por Renata Agostini; colaborou Paulo Oliveira, especial para AE.

Pastores escolhem representantes 

Um dos mais midiáticos cabos eleitorais dos evangélicos, o pastor Silas Malafaia está animado com as chances de seus escolhidos nas urnas. “É a coisa mais fácil do mundo: é só usar as redes sociais. É o que vai mandar nessa eleição”, diz o pastor, que ficou famoso com aparições na TV, mas hoje investe pesado na seara digital, com dois milhões de seguidores no Facebook e 1,3 milhão no Twitter. “É só você falar nos três anos anteriores o que você pensa. Eu venho fazendo isso há tempos. Aqui todo mundo já sabe quem representa o Malafaia”, diz o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Ele sabe do que está falando. Em 2014, Malafaia, que tem um irmão deputado estadual no Rio e um membro de sua igreja como vereador carioca, elegeu para a Câmara dos Deputados Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), fiel da Vitória em Cristo. Com o aliado, o pastor, que já era cabo eleitoral de aspirantes a político País afora, aumentou seu poder de influência e uniu-se a um grupo de líderes evangélicos com representação no Congresso por meio de membros de suas igrejas. É o caso de Edir Macedo (Universal), Manoel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira), R.R. Soares (Internacional da Graça de Deus), Valdemiro Santiago (Mundial do Poder de Deus), José Wellington Bezerra da Costa (Assembleia de Deus Belém), Mário de Oliveira (Igreja do Evangelho Quadrangular).

A seu favor neste ano, eles contam com o desgaste da classe política – a Lava Jato atingiu políticos evangélicos, mas, diferentemente de outros casos, o grupo não ficou no centro do escândalo – e com o apelo de valores conservadores em segmentos da população. Para congressistas e pesquisadores, em uma campanha de curta duração e sem dinheiro de empresas, quem já tem “base eleitoral” sairá na frente – caso dos evangélicos.

O Ministério Público e a Justiça Eleitoral, porém, vêm tentando ampliar a vigilância. O objetivo é conter a tentativa de religiosos de usarem templos para influenciar o eleitorado. A lei não permite que candidatos recebam doação de igrejas ou façam campanha dentro delas. Mas ainda é tema controverso o chamado “abuso do poder religioso”. O conceito tem sustentado decisões em tribunais a partir da interpretação de magistrados de que igrejas atuaram diretamente para eleger candidatos.

Deputados eleitos sob o manto evangélico temem ainda que o sucesso dos últimos anos os prejudique em razão da proliferação de candidaturas. “Votos não se multiplicam, eles migram”, diz Feliciano, questionando se a ânsia por lançar evangélicos não fará a bancada, em vez de crescer, minguar em 2019. A resposta virá em outubro. / R.A.

Assembleia lidera

“Elegemos a Câmara mais conservadora desde 1964”, comemora Marco Feliciano (Podemos-SP), o deputado-pastor de Orlândia que ganhou projeção nacional após assumir, em 2013, no governo Dilma, a presidência da Comissão de Direitos Humanos, historicamente liderada pela esquerda. O posto resultou em protestos e rendeu ao deputado espaço no noticiário. Líder da Catedral do Avivamento, ligada à Assembleia de Deus, o pastor foi reeleito em 2014 com quase o dobro de votos – foi o quarto deputado mais votado no País.

Não ascendeu sozinho. A bancada evangélica alcançou patamar inédito, indicam levantamentos. Segundo pesquisa do cientista político Fábio Lacerda, que em sua tese de doutorado na USP produziu um banco nacional de candidaturas evangélicas, o total de deputados saltou de 35 eleitos em 2006 para 67 em 2014. Para o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, o número foi de 36 deputados em 2006 para 75 eleitos em 2014, um aumento de 108% – a diferença em relação aos 84 achados pelo Estadão/Broadcast explica-se pela diferença de método dos levantamentos e pela entrada de suplentes.

A expansão no Congresso reflete o aumento dos seguidores das igrejas evangélicas. Em 1991, eram 9% dos brasileiros. Em 2010, no censo do IBGE, representavam 22%. Pesquisa Datafolha de 2016 apontou que eles já beiram 30% da população, ou 60 milhões de pessoas. É uma das maiores populações evangélicas do mundo.

O crescimento dessa base potencial de eleitores não se traduziria em votos, no entanto, não fosse a determinação de algumas igrejas, especialmente as neopentecostais, em ter voz no Congresso. “Desde 1986, a participação deles no Congresso só cresce. Em 2006, há queda pontual, em função do escândalo dos Sanguessugas, que envolve líderes evangélicos”, diz Ronaldo Almeida, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Algumas das igrejas começaram a adotar a estratégia de escolher candidatos oficiais. Em outros casos, líderes se lançaram ao pleito. A denominação mais bem-sucedida é a Assembleia de Deus, que funciona como uma congregação de igrejas, com centenas de braços. Hoje 25 deputados dizem segui-la – 11 pastores. Logo após vêm a Igreja Batista, com 11, e a Igreja Universal do Reino de Deus, com dez.

Os evangélicos logo se tornaram “puxadores de voto”, atraindo interesse das legendas. “Quase todos os partidos passaram a desejar ter candidatos evangélicos. Isso não acontece em outros países”, diz o pesquisador canadense Paul Freston. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.