Lei aprovada ajuda no combate à subnotificação de automutilação e suicídio, diz psiquiatra

  • Por Jovem Pan
  • 30/03/2019 08h00 - Atualizado em 01/04/2019 12h25
ReproduçãoDepressão - a verdade sobre as drogas

O psiquiatra Ricardo Abel Evangelista avalia como “muito válido” o projeto aprovado na Câmara dos Deputados nesta semana, que obriga hospitais e escolas, públicos ou privados, de notificarem as autoridades os casos de automutilação e tentativas de suicídio de crianças e adolescentes. “Essa iniciativa acaba produzindo um certo respaldo de dados e estatísticas, dos quais estamos muito carentes no Brasil”, disse Evangelista em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, neste sábado (30), ressaltando que a subnotificação é um grande problema.

O projeto de lei (PL) foi aprovado no plenário da Câmara na última quinta-feira (28). Embora tenha sido apresentado em 2018 pelo então deputado federal Osmar Terra (MDB), atual ministro da Cidadania, a aprovação do PL ocorreu após o massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. No último dia 13, dois jovens, ex-estudantes do colégio, entraram no local e mataram dez pessoas e feriram outras onze.

De acordo com Evangelista, os profissionais da saúde e da educação precisam ter uma capacitação mínima para lidar com a questão. “A pessoa que pensa em suicídio pode ter pensamentos autodestrutivos, sinais de isolamento, fazer automutilação”, afirmou. O psiquiatra, no entanto, disse que automutilação e suicídio não são sinônimos. “Nem todo mundo que se automutila vai se suicidar.”

Entre os sinais dados por pessoas com transtornos mentais está a depressão, de acordo com Ricardo Evangelista. Ela é caracterizada por um estado de tristeza perena, isolamento social, discursos de autoestima, abandono de tarefas que antes eram muito prazerosas e o decaimento de notas na escola, por exemplo. “Isso pode dar o sinal amarelo para que o jovem possa ser ouvido e o profissional dar seguimento com pessoas mais indicadas”, disse o psiquiatra.

A família, de acordo com Evangelista, é importante para determinar como essa criança ou adolescente será no futuro. “Nas últimas décadas se vê tendência de ciração de crianças acolhedora demais em algumas famílias e de menos em outras.”

“Nos casos excessivos, estão presentes a ausência de limites, de ter responsabilidades e de sofrer as consequências pelos próprios atos”, disse. Segundo o médico, isso faz com que o jovem se torne um adulto “sem o treino adequado”.

No entanto, a ausência de uma referência clara de pai e mãe também impacta a criança e o adolescente, de acordo com Evangelista. “Quando o jovem não tem como ouvir um bom conselho, ser acolhido isso também é deixá-lo a esmo. Essa sensação de quase orfandade pode comprometer a capacidade que ele tem de relações futuras.”