‘Murro no próprio rosto’, mentira e R$ 300 mil desviados; entenda a fraude da ONG Pata Voluntária

  • Por Carolina Fortes
  • 05/07/2019 21h05
Reprodução/InstagramProprietárias arrecadaram R$ 300 mil em doações após inventar que haviam sido roubadas

Uma história movimentou as redes sociais nesta sexta-feira (5). A presidente da ONG Pata Voluntária, Amropali Pedroso Mondial, e mais duas voluntárias, uma identificada como Nayane Petrucia Silva Barros, foram presas em Maceió acusadas de inventar que haviam sido roubadas para arrecadar dinheiro para benefício próprio.

Mas a confusão não termina por aí. O delegado do caso, Leonam Pinheiro, disse à Jovem Pan que uma das mulheres chegou a “dar um murro na própria cara” para trazer mais veracidade ao crime. Elas fizeram um Boletim de Ocorrência, nesta quinta-feira (4), que também foi divulgado nas redes sociais.

No post, elas colocaram as fotos do BO e pediram desculpas aos seguidores do Instagram pela demora em registrar o crime, alegando que “ainda estavam completamente em choque devido ao trauma”.

Segundo Pinheiro, o dinheiro arrecadado com a fraude estava distribuído em três contas bancárias e somava R$ 300 mil reais. “Elas tinham um montante absurdo, podiam ajudar os poucos animais que existiam no abrigo.”

Como a fraude foi descoberta

Tudo começou quando as proprietárias postaram o pedido desesperado de ajuda no Instagram da Pata Voluntária, dizendo que “a ONG havia sido roubada, as mulheres agredidas e que os animais estavam sem nada” e implorando por ajuda financeira. Muitas pessoas começaram a marcar o delegado e deputado estadual de São Paulo Bruno Lima, conhecido pelo envolvimento com causas animais.

“Eu comentei perguntando se já tinham elaborado o BO, e elas não me respondiam. Achei estranho, porque normalmente nesse caso a pessoa quer ajuda. Daí entrei em contato com o [delegado] Leonam [Pinheiro], em Maceió, e ele começou a verificar. No meio do caminho, fez algumas investigações e viu que o crime de furto era mentira”, contou em entrevista à Jovem Pan.

O delegado Pinheiro acionou, então, mais dois colegas, e eles prenderam em flagrante as proprietárias. Uma delas confessou o crime. Elas já foram ouvidas e estão presas por estelionato, comunicação falsa de crime, associação criminosa, além de guarda ilegal de animais, por criar animais silvestres sem autorização.

Lima declarou que o abrigo era muito menor do que o exposto nas redes sociais e que utilizava vídeos de resgate de outros locais. Ele assegurou ainda que a preocupação no momento é com os animais, que já estão recebendo atenção dos veterinários. Sobre os silvestres, o delegado falou que “já conseguiram termo de compromisso do veterinário para que os animais sejam entregues imediatamente ao Ibama”.

A destinação do dinheiro proveniente das doações ainda está sendo discutida.

Forma inusitada de divulgar o crime

Chamou a atenção também a forma que os delegados encontraram para comunicar o crime. Eles postaram vídeos e declarações na página do Instagram da própria ONG, de acordo com Pinheiro, para esclarecer e alertar as pessoas, já que muitas estavam duvidando da informação e continuavam, inclusive, doando.

O delegado reiterou que recebeu autorização expressa e devidamente formalizada das proprietárias para postar nas redes sociais da Pata Voluntária. “Elas mesmas vislumbraram como uma forma de diminuir os prejuízos das vítimas, o que mostrou um comportamento de arrependimento interessante”, afirmou.

Entretanto, o Consultor Jurídico da Jovem Pan, Arthur Rollo, entende que a publicação no perfil alheio é ilegal. “Não pode postar na rede da pessoa, ainda que seja para esclarecer. Isso deveria ser uma decisão judicial e não administrativa. Para mim, é ilegal, uma violação de privacidade e os delegados podem ser responsabilizados por abuso de poder.”

Ele disse, ainda, que mesmo que tivesse a presença de um advogado e que não fosse constatado que as mulheres foram coagidas a entregar as senhas “não é o procedimento padrão”.

Rollo informou também que as pessoas lesadas podem rever o dinheiro que foi doado. “É possível que o Ministério Público faça uma ação para devolver o dinheiro dessas pessoas, basta provar que elas caíram em uma fraude.”