Planalto vê Igreja Católica como potencial opositora e quer ‘neutralizar’ encontro de bispos

  • Por Jovem Pan
  • 10/02/2019 15h15
Fátima Meira/Estadão ConteúdoAugusto Heleno disse que a questão "vai ser objeto de estudo cuidadoso" pelo Gabinete de Segurança Institucional

O Palácio do Planalto se movimenta para conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro, o que estaria acontecendo no vácuo da perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a igreja é uma tradicional aliada do Partido dos Trabalhadores.

Como “aliados” do PT, os líderes católicos estariam se articulando para influenciar debates antes protagonizados por petistas no interior do País e nas periferias.  Esse é o alerta feito ao governo por informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares, que relatam encontros de cardeais brasileiros com o Papa Francisco, no Vaticano.

Nessas reuniões, os religiosos estariam discutindo a realização do Sínodo Sobre Amazônia, que se reunirá em Roma em outubro deste ano, com a presença de bispos de todos os continentes. Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados como uma “agenda da esquerda” pelo governo brasileiro.

A previsão é que o debate católico deve abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, afirmou o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a ofensiva governamental.

‘Clero progressista’

Com base em documentos, militares do GSI avaliaram que setores da igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar Bolsonaro e obter impacto internacional. “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.

Escritórios da Abin em Manaus (AM), Belém (PA), Marabá (PA) – epicentro de conflitos agrários – e Boa Vista (RR) – que monitora a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi – e Raposa Serra do Sol (RR) estão sendo mobilizados para acompanhar as reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses locais.

O GSI também obteve informações dos comando militares da Amazônia e do Norte. Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar tentativa de neutralizar o Sínodo.

O Itamaraty deve monitorar discussões no exterior e o Ministério do Ambiente, detectar eventual participação de ambientalistas e organizações não governamentais. Um militar indicou que os religiosos são contra “toda” a política de Bolsonaro para a Amazônia – que prega a defesa do que chama de “soberania” da região.

‘Perigo real’

Assim que os primeiros comunicados da Abin chegaram ao Planalto, os generais logo fizeram conexão com críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Órgãos ligados à CNBB, como grupos indigenistas missionários e Pastoral da Terra, não economizaram ataques, mesmo após a eleição.

Esses grupos seriam aliados históricos do PT. A Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota na semana passada em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que, como juiz, condenou na Operação Lava Jato o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado novamente por Gabriela Hardt na semana passada.

Na campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”. As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet que o papa Francisco era “comunista”. Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu no apoio dos evangélicos.

A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice. Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Damares, por sua vez, já declarou em vídeos que “não é o governo que vai mudar a nação, mas a igreja evangélica”.

Histórico

A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura. A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como braço do PT.

A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas. O ex-presidente Lula, que era próximo de Dom Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo, foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), Luiz Cappio, contrário à transposição do Rio São Francisco.

Com a chegada de Dilma Rousseff ao poder, a relação entre a CNBB e o Partido dos Trabalhadores sofreu abalos. A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária. A conferência, porém, se opôs ao processo de impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.

‘Vamos entrar a fundo nisso’

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro, afirmou que há uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados. “Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, declarou o general da reserva.

Mais próximo conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, Heleno criticou a atuação da Igreja Católica, mas relativizou a capacidade de causar problemas para o governo.  “Não vai trazer problema. (O trabalho de neutralizar o encontro) vai apenas fortalecer a soberania brasileira e impedir que interesses estranhos acabem prevalecendo na Amazônia.”

“A questão vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI. Vamos entrar a fundo nisso.” Ele mesmo foi comandante militar de Manaus, assim como o ex-chefe do Exército, Eduardo Villas Bôas. O vice-presidente Hamilton Mourão também atuou na região, à frente da 2ª Brigada de Infantaria da Selva, em São Gabriel da Cachoeira (AM).

*Com informações do Estadão Conteúdo