Prefeito de BH cancela ‘Coroação da Nossa Senhora das Travestis’ na Virada Cultural

  • Por Carolina Fortes
  • 19/07/2019 17h31
Reprodução/FacebookA performance estava marcada para ocorrer neste sábado (20) durante a Virada Cultural de BH

O prefeito de Belo Horizonte (BH), Alexandre Kalil, anunciou nas suas redes sociais nesta sexta-feira (19) que cancelou o evento Coroação da Nossa Senhora das Travestis, do grupo teatral Academia Transliterária. Segundo ele, a manifestação artística “não é cultura” e agrediria a religião católica. A performance estava marcada para ocorrer neste sábado (20) durante a Virada Cultural de BH.

No evento no Facebook, a Academia TransLiterária convidava o público a “conhecer a nossa travesti rainha e coroá-la conosco!”. “Durante a performance integrantes do coletivo se apresentam de forma ritualística para SUA Senhora, a Nossa Senhora das Travestis,e convidam os passantes à participação – procissão. São distribuídos a cada pessoa interessadas santinhos com a Oração da Nossa Senhora das Travestis e, simultaneamente, ocorre apresentação de músicas autorais e/ou paródias”, dizia o texto.

A assessoria responsável pela Virada Cultural confirmou, em comunicado, a suspensão da manifestação artística. De acordo com a nota, “ao ser selecionada por meio de um chamamento público, em nenhum momento houve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer pessoa ou grupo. Mas na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida, optou-se, então, pela suspensão da atividade”.

“A Virada Cultural de Belo Horizonte é um evento que preza pela pluralidade e que tem como objetivo a convivência pacífica e harmônica entre todos os cidadãos”, concluiu.

Petição pedia cancelamento da performance

Uma petição online, com mais de 20 mil assinaturas, foi feita com o objetivo de pedir o cancelamento do evento. “Tal ato é uma afronta grave e direta contra o sentimento religioso dos cristãos, majoritários no Brasil e em Belo Horizonte, e constitui crime previsto no art. 208 do Código Penal”, trazia o texto, citando a tipificação: ““Vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa”.

Além disso, a solicitação afirmou que a coroação foi financiada com dinheiro público e “envergonha e assusta os belo-horizontinos, os cidadãos ordinários, os católicos, enfim, todos aqueles que têm Nossa Senhora como Mãe”.

“E mais: autorizar tal vilipêndio mancharia a história da cidade e tornaria criminoso o uso de verbas públicas que, obtidas pelo suor dos cidadãos, seriam empregadas em favor de um grupo truculento que chama de “arte” o desrespeito, a blasfêmia, o acinte, a gozação, enfim, o brincar com o sagrado.”

Academia Transliterária chamou decisão de “censura”

O grupo Academia Transliterária se posicionou contra a decisão em vídeo publicado na sua página no Instagram. “Nós da Academia TransLiteraria informamos com muito pesar a censura que recebemos por parte da organização da Virada Cultural de Belo Horizonte, na pessoa do prefeito Alexandre Kalil, via postagem no twitter e redes sociais sem o devido contato anterior com o coletivo e sem cumprimento do prazo com a secretária de cultura”, escreveu.

“Repudiamos a censura que estamos sofrendo no país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo e continuaremos nosso trabalho pelos Direitos Humanos e pela liberdade dos nossos corpos estarem vivos”, disse uma das pessoas integrantes do coletivo.

O grupo afirmou ainda que gostaria de ter a oportunidade de dialogar com “quem acredita que a ação é um ataque a fé católica ou cristã”, já que as artes têm o poder de “mudar a realidade social”.

Confira:

 

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Travesti Rainha CENSURADA na virada cultural Nós da Academia TransLiteraria informamos com muito pesar a censura que recebemos por parte da organização da Virada Cultural de Belo Horizonte, na pessoa do prefeito Alexandre Kalil, via postagem no twitter e redes sociais sem o devido contato anterior com o coletivo e sem cumprimento do prazo com a secretária de cultura. Estivemos essa manhã na secretaria municipal de cultura em reunião com representantes desta secretaria bem como da fundação municipal de cultura incluindo Juca Ferreira, Fabíola Moulin e Lilian Nunes, responsavel do Instituto Periférico. Nesta reunião fomos comunicades que a censura é um fato e que não há o que fazer da parte da secretaria, da fundação e de nossa parte. Contextualizamos também a trajetória e ações artistico-sociais promovidas pelo coletivo numa tentativa de reverter a censura imposta pelo prefeito Alexandre Kalil e Arquidiocese de Belo Horizonte na figura do arcebispo Dom Walmor. Gostaríamos de ter A possibilidade de diálogo com quem acredita que nossa ação é um ataque a fé católica ou cristã, para que entendam os seguintes aspectos que vem a seguir: O poder que as artes têm de mudança de realidade social. É forte para nós da Academia TransLiterária ao longo desses quase três anos de existência nos olharmos cara a cara e ver quem fomos, onde estávamos e quem nos tornamos após o início desse coletivo. Empoderamento que leva a emancipação, pois se podemos ser artistas podemos ser qualquer coisa. Dizemos, somos artistas! Dizemos que nossos corpos falam de uma cultura, um lugar, falamos nossa própria língua, nossos corpos respondem artisticamente de várias formas, somos uma comunidade. Produzimos culturas. Extrapolamos o real, não pretendemos mais performar para mostrar o mundo como ele é, para isso temos as estatísticas, temos a convivência. Nós performamos como transformar o mundo. Nós tornamos a nossa representação em si real, uma revanche. Vamos ao longo da trajetória da Academia TransLiterária celebrando, festejando cada passo, cada criação. Nossa arte é festa por que em um mundo que não deseja nossos corpos vivos, seguimos vivas.

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Prefeito participou da Parada LGBTQ

Muitas críticas do movimento LGBTQ direcionadas ao prefeito foram porque, na 22ª Parada do Orgulho LGBT, que ocorreu no dia 14 de julho em Belo Horizonte, ele discursou a favor do movimento. Na ocasião, Kalil foi ovacionado e aplaudido pelos presentes.

“Quero mostrar que essa cidade não tem dono, ninguém manda nela a não ser o povo de BH. Chega de cidade com dono, morta e sem vida, essa cidade que vive e vocês são a prova viva do que está acontecendo aqui hoje”, declarou. “Trago três palavras que libertam. A primeira, não sei. A segunda, virem pra quem amam e digam: eu te amo. E a terceira e última: fod….”, completou.