Alexandre Borges: Cinemark queima o próprio filme em polêmica sobre 1964

  • Por Alexandre Borges/Jovem Pan
  • 02/04/2019 09h12 - Atualizado em 14/05/2019 13h44
Nilton Fukuda/Estadão ConteúdoSe a opinião de extrema-esquerda é válida nas salas de cinema, escolas, universidades e redações, por que as outras não?

A rede Cinemark se envolveu numa confusão desnecessária ontem por conta da exibição do documentário “1964: O Brasil entre armas e livros”, produzido pelo Brasil Paralelo, uma iniciativa pioneira de jovens gaúchos que já chegou a incrível marca de 15 milhões de assinantes segundo a própria empresa.

O polêmico documentário já era rotulado de defensor da ditadura por alguns jornalistas antes mesmo de ficar pronto e que, portanto, nunca tinham visto a obra. Quem viu o documentário no domingo nega que seja uma defesa da regime, mas relatos são de que é uma pesquisa ampla historiográfica sobre o período, além de uma avaliação dos seus erros e acertos.

Ainda segundo vários relatos que recebi, é um documentário crítico ao regime em diversos momentos e seu único crime foi mesmo o de não ficar restrito à opinião filtrada pelas lentes ideológicas dos opositores mais radicais ao regime.

Você não precisa concordar com o conteúdo deste documentário ou gostar do regime, mas é claro que a história do Brasil precisa de mais debate e não menos. A reação da rede Cinemark ao dizer que a exibição foi “um erro de procedimento” é curiosa porque pretende censurar uma discussão democrática sobre um regime criticado, entre outras coisa, pela censura aos meios de comunicação.

Mesmo que “1964: O Brasil entre armas e livros” fosse simpático ao regime, o que quem já viu diz que não é, censurar sua exibição num ambiente privado por patrulha ideológica é evidentemente um ato autoritário contra a liberdade de expressão e um retrocesso num país que ainda precisa aprender como lidar com diversidade de opinião.

Se a opinião de extrema-esquerda é válida nas salas de cinema, escolas, universidades e redações, por que as outras não? É uma dúvida que a Cinemark deixa no ar, já que, entre outros filmes de claramente políticos, a rede exibiu o panfleto político-partidário “Lula, o filho do Brasil” e é de se esperar que exiba, em breve, o filme sobre “Marighella” do ativista de extrema-esquerda e ator Wagner Moura.

Recentemente, a Netflix começou a exibir o ótimo documentário sobre os terraplanistas americanos. É claro que a terra é redonda, mas você proibiria um documentário com medo de que o público passasse a achar que a terra é plana? É um absurdo que desrespeita e despreza a sua inteligência.

Repito: precisamos de mais debates e não menos. Quem tem medo de debater revela mais sobre si mesmo do que sobre o tema em questão.

Claro que o Brasil tem outras prioridades em termos de debate como a Reforma da Previdência ou a dramática situação dos nossos 13 milhões de desempregados, mas qual é o problema de se realizar um evento fechado, num único dia e numa meia dúzia de sala de cinema, exibindo um trabalho sério sobre 1964 que apenas comete o crime de não tratar Marighella e Lamarca como santos?

O que os censores parecem não perceber é que são eles que, ao tentar proibir as vozes contrárias, fazem essas vozes ainda mais fortes, despertado curiosidade sobre o que estão dizendo.

Nesta terça, o documentário “1964: O Brasil entre armas e livros” estréia na internet. Tenho certeza de que a turma do Brasil Paralelo agradece a propaganda gratuita oferecida pelos censores.