Felipe Moura Brasil: A pressa é inimiga da interpretação

  • Por Felipe Moura Brasil/Jovem Pan
  • 14/02/2019 07h11
Reprodução/FacebookSe Santino fosse Carlos, talvez Don Corleone tivesse de aprimorar seu conselho: “Nunca mais diga a ninguém de fora da família o que você está pensando, principalmente se leu o que não estava escrito no jornal"

Em novembro de 2018, falei em vídeo, em tom de ironia, que Jair Bolsonaro deveria dar a todo o seu entorno um dos velhos e bons conselhos do Poderoso Chefão. É aquele que Don Vito Corleone dirige em forma de bronca a seu filho Santino, que havia dado com a língua nos dentes durante uma reunião com outros mafiosos.

“Nunca mais diga a ninguém de fora da família o que você está pensando.”

Carlos Bolsonaro, filho de Jair, diz ao mundo inteiro nas redes sociais o que está pensando. Foi só eu lembrar nesta quarta-feira (13) aqui que ele já falou até que pessoas próximas desejam a morte do pai que ele voltou a soltar o verbo no Twitter.

Dessa vez, acusou o ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência, de ter mentido ao declarar que falou três vezes com o presidente pelo WhatsApp.

A reação implacável de Carlos só escancarou o que a matéria do Globo com a declaração banal de Bebianno já afirmava em seu penúltimo parágrafo: “Um dos mais próximos aliados de Bolsonaro durante a campanha, Bebianno é desafeto do vereador Carlos Bolsonaro, filho mais próximo do presidente. O parlamentar carioca seria o responsável por advogar junto ao pai para que Bebianno tenha menos poder no governo.”

Depois de chamar de “mentira absoluta” a declaração do ministro, Carlos publicou um áudio enviado pelo presidente a Bebianno no qual Bolsonaro afirma que não vai falar nada além do essencial com ninguém porque está se recuperando da cirurgia.

O vereador afirmou, então, que “não há roupa suja a ser lavada! Apenas a verdade: Bolsonaro não tratou com Bebianno o assunto exposto pelo Globo como disse que tratou”.

É aí que mora um aparente problema de interpretação de texto.

Carlos não especificou o que entendeu da matéria, nem da declaração de Bebianno, mas o assunto mencionado pelo jornal como sendo aquele tratado pelo ministro com Bolsonaro era, na verdade, o cancelamento da viagem de ministros a Amazônia a pedido do presidente.

O resto da matéria é que faz referência ao repasse de dinheiro do fundo partidário do PSL a uma suposta candidata laranja de Pernambuco, mas isto nada tem a ver com o conteúdo da conversa citada entre os dois.

A confusão aumentou à noite com a entrevista de Jair Bolsonaro à Record.

Questionando sobre a treta de Carlos com Bebianno, o repórter disse que “saiu em parte da imprensa” que o presidente teria telefonado de dentro do hospital para tratar das denúncias contra o PSL.

“É mentira”, respondeu Jair, que ainda defendeu eventual demissão de quem for culpado.

Logo se espalhou que Bolsonaro estava endossando o filho e desmentindo Bebianno, que ainda declarou que não pretende pedir demissão; mas o presidente, na verdade, só negou ter tratado de laranjas com o ministro, sem esclarecer se falou com ele sobre outros assuntos citados pelo Globo, como a viagem à Amazônia.

Se Santino fosse Carlos, talvez Don Corleone tivesse de aprimorar seu conselho: “Nunca mais diga a ninguém de fora da família o que você está pensando, principalmente se leu o que não estava escrito no jornal.”