Felipe Moura Brasil: Áudios confirmam conversa de Bolsonaro e Bebianno

  • Por Felipe Moura Brasil/Jovem Pan
  • 19/02/2019 08h51
Fátima Meira/Estadão ConteúdoBolsonaro se deixou contaminar pelo ódio do filho ao ministro, até outro dia, mais próximo do pai

Não existe a “mentira absoluta” apontada por Carlos Bolsonaro na declaração de Gustavo Bebianno ao Globo de que falou três vezes com o presidente na terça-feira passada.

Se Carlos se referia a Bebianno ter falado com Bolsonaro sobre suspeitas de laranjas no PSL, sua acusação estava errada, porque a matéria do jornal não atribuía esse assunto à pauta da conversa.

Se Carlos se referia a Bebianno ter falado com Bolsonaro sobre a viagem de ministros à Amazônia, como citado na matéria, sua acusação era falsa, porque o presidente enviou dois áudios ao então ministro para pedir que ele cancelasse a viagem.

No outro áudio que Bolsonaro enviou a Bebianno naquela terça, o presidente reclamou do então ministro por ter marcado audiência com o diretor de Relações Institucionais da Globo no Palácio do Planalto e pediu o cancelamento dela, porque não queria trazer os inimigos para dentro de casa.

Também em áudio, o presidente acusou Bebianno de ter plantado no Antagonista uma nota que, na verdade, apenas repercutia e destacava um trecho isolado de uma matéria da Folha. O jornal dizia ter apurado que Bebianno tentou falar no domingo pelo telefone com Bolsonaro, para explicar o caso das suspeitas de laranjas, mas o presidente, que se recuperava de cirurgia, não quis atender o ministro.

Na conversa, Bebianno rebateu Bolsonaro dizendo que a matéria era da Folha e que mal fala com o jornal. Bolsonaro insistiu que só podia ter sido ele, mas não apresentou qualquer prova ou testemunho de que o ministro teria plantado a notícia. Nem a Folha parece ter dado relevância à própria alegada apuração, já que ela aparece em apenas três linhas no sétimo parágrafo de uma matéria cujo título tem outro enfoque: “Bebianno contradiz presidente do PSL e nega responsabilidade sobre laranja”.

Todos esses fatos agora sabidos só confirmam as análises que fiz do caso desde o começo, apontando a desconexão entre a acusação de Carlos, compartilhada por Jair, e as matérias e declarações originais.

A dificuldade de se apontar um motivo claro e objetivo para a exoneração de Bebianno resultou na alegação do porta-voz de Bolsonaro, Otávio do Rêgo Barros, de que ela se deu por uma questão de “foro íntimo”. Mas o “foro íntimo” foi exposto no Twitter.

Em vídeo, Bolsonaro deu apenas uma alegação genérica: “Desde a semana passada, diferentes pontos de vista sobre questões relevantes trouxeram a necessidade de uma reavaliação. Avalio que pode ter havido incompreensões e questões mal entendidas de parte a parte, não sendo adequados pré-julgamentos de qualquer natureza.”

Mas não é que pode ter havido incompreensões. Houve, por parte do filho, uma acusação falsa de “mentira absoluta” que Bolsonaro, ciente disso, preferiu não desmentir enfaticamente, nem assumir que errou ao compartilhá-la.

Em quebra de confiança pelo vazamento do conteúdo dos áudios, razão ventilada antes do comunicado oficial, o presidente não falou, já que teria de responder por que seu filho pode postar um áudio dele para tentar corroborar uma acusação falsa contra Bebianno e o então ministro não podia desmenti-la mostrando provas.

O presidente tampouco atribuiu a exoneração às suspeitas de laranjas no PSL, já que, de outro modo, teria de exonerar também o ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio, que, segundo a Folha, desviou para sua campanha 279 mil reais do fundo eleitoral reservados para o financiamento de candidatas mulheres.

Sobraram então os “diferentes pontos de vista sobre questões relevantes”, alegação vaga o bastante para ser aplicada, por exemplo, à tentativa de Bebianno, recusada por Bolsonaro, de o presidente estabelecer uma relação menos hostil com a imprensa.

A alegação pode até servir – e serve – para insuflar uma ala dos bolsonaristas virtuais, da mesma linha de Carlos, contra a imprensa e Bebianno, mas é apenas cortina de fumaça para o fato de que Bolsonaro se deixou contaminar pelo ódio do filho ao ministro, até outro dia, mais próximo do pai.