Felipe Moura Brasil: Do tiro ao título, a história de um campeão

  • Por Felipe Moura Brasil/Jovem Pan
  • 18/12/2018 08h21
ReproduçãoResta a cada vítima sobrevivente adaptar-se às suas consequências e seguir na luta para conquistar o que sonhou

Em 1997, eu era adolescente e minha mãe me acordou nervosa, trazendo a capa da edição impressa do jornal O Globo que tinha uma nota sobre um jovem baleado em um assalto na ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

A vítima de um tiro na barriga era Henrique Saraiva, um dos meus melhores amigos de infância, com quem eu jogava bola e viajava nas férias. Ele pedalava na noite anterior em direção à casa de outro amigo, onde pretendia assistir a um jogo de futebol na TV. O bandido quis roubar sua bicicleta e atirou.

Saímos correndo para o hospital, minha mãe e eu, e encontramos na porta a mãe do Henrique, Sônia, que abraçou a minha mãe aos prantos, após uma noite insone ao lado dele. Só tínhamos a informação do jornal, e eu, sem muita noção dos riscos que ele corria, falei que a notícia só não dizia que Henrique estava bem.

Sônia me olhou com tristeza e mostrou que ainda estava preocupada em perdê-lo, porque a situação não era tranquila, muito pelo contrário. Depois visitei meu amigo no quarto e vimos na TV reportagens sobre o crime de que ele foi vítima, com direito a uma reconstituição ilustrada que Henrique corrigia do leito, apontando imprecisões.

Ele estava acordado e consciente. Teria uma vida dura pela frente, mas sobreviveu ao impacto da bala que atingiu sua coluna e roubou-lhe parte do movimento das pernas, impondo o uso de muletas para caminhar.

Ontem, Gabriel Medina conquistou o bicampeonato mundial de surfe e é natural que as atenções tenham se voltado para ele. Ele merece, um orgulho para o nosso país. Mas as minhas foram para Henrique Saraiva, que se tornou, também ontem, 21 anos depois do tiro, campeão mundial de surfe adaptado, enchendo de orgulho seus velhos amigos.

Curiosamente, o título foi conquistado no mesmo dia em que o empresário Hugo Ernesto Klein, de 71 anos, sócio de uma empresa de pedalinhos, morreu após ser baleado durante um aparente assalto naquela mesma Lagoa, cartão postal do Rio.

A criminalidade continua levando ou mudando para sempre a vida dos brasileiros. Resta a cada vítima sobrevivente adaptar-se às suas consequências e seguir na luta para conquistar o que sonhou.