Felipe Moura Brasil: Fardas e fardos do governo Bolsonaro

  • Por Felipe Moura Brasil/Jovem Pan
  • 13/02/2019 07h34
Fátima Meira/Estadão ConteúdoJair Bolsonaro, quando sair do hospital e estiver recuperado da saúde, precisará fazer com que as disputas de poder e as tensões existentes não atrapalhem o avanço de medidas necessárias ao Brasil

“A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto.”

Foi o que escreveu Carlos Bolsonaro no Twitter em 28 de novembro.

Em 8 de fevereiro, este mesmo Carlos afirmou que não adianta insistirem em colocar o tempo todo irmãos contra irmãos, pais contra filhos e filhos contra generais.

“Não vai funcionar e só perderão credibilidade”, previu ele.Ou seja: o próprio Carlos, que o pai chama de seu “pitbull”, deu margem a especulações sobre as rivalidades e disputas internas no entorno do presidente, mas reclamou da imprensa por plantar intrigas.

Já o general Hamilton Mourão é outro que nunca foi de medir suas palavras. No momento mais sensível da corrida eleitoral, o vice causou uma série de polêmicas ao chamar o 13º de “jabuticaba” e casas de áreas carentes só com mãe e avó de “fábricas de elementos desajustados”, além de citar o “branqueamento da raça” ao elogiar a beleza do neto.

Mais recentemente, contrariou posições de Bolsonaro ao defender que o aborto é uma escolha da mulher e ao se manifestar contra a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Com isso, despertou críticas de evangélicos e conservadores ligados ao presidente.

O vice, ao publicar no Twitter uma foto em que aparece cercado pela imprensa, ainda elogiou “a dedicação, entusiasmo e espírito profissional a todos os jornalistas”, minutos depois de Bolsonaro postar uma foto em que aparece digitando no celular e afirmar que estava usando sua arma mortal que deixa a imprensa aterrorizada.

As acusações de bolsonaristas e as análises da imprensa repetidas nas últimas semanas variam entre Mourão ser um caipira deslumbrado com a fama, não ter muito o que fazer e gostar de dar entrevistas ao contrário de Bolsonaro, ser um dos militares liberais e pragmáticos avessos à pauta direitista nos costumes e nas relações internacionais, funcionar como contrapeso ao conservadorismo de ministros como Ernesto Araújo e Ricardo Vélez, ou ao alegado radicalismo do próprio presidente, cujo posto também é acusado de atuar para assumir, minando por dentro o atual governo.

Aparentemente, no entanto, Mourão se assustou com as críticas. Segundo o Estadão, ele procurou aconselhamento sobre como se proteger do grupo liderado pelo núcleo familiar do governo e turbinado pelos diplomatas ideológicos, todos descontentes com seu protagonismo neste início de mandato, e a recomendação dos assessores foi para o vice dar sequência a posicionamentos sutis que denotem fidelidade.

Sutileza, convenhamos, não é o forte de Mourão, nem de Carlos.

Jair Bolsonaro, quando sair do hospital e estiver recuperado da saúde, precisará fazer com que as disputas de poder, inclusive no PSL, e as tensões existentes em seu entorno, inclusive entre ele próprio e a equipe econômica sobre o texto da reforma da Previdência, não atrapalhem o avanço de medidas necessárias ao Brasil, nem abram brechas a serem exploradas pela chamada turma do “quanto pior, melhor”. E isto só se faz com debates internos e concessões de cada um em determinados pontos, sob uma forte liderança.

Os petistas, no governo, costumavam andar unidos a favor do que era pior para o país e melhor para eles. A chance de Bolsonaro é unir os núcleos do governo a favor do que é melhor para o país, mesmo que, em alguns casos, seja o pior para alguns deles.