Felipe Moura Brasil: O cinismo do PT no caso Flávio Bolsonaro

  • Por Felipe Moura Brasil/Jovem Pan
  • 23/01/2019 08h54
Thyago Marcel/Câmara dos DeputadosNão foi o PT de Paulo Pimenta que defendeu o fim das conduções coercitivas de investigados?

O deputado federal do PT Paulo Pimenta criticou ontem que ninguém das famílias Queiroz e Bolsonaro tenha sido ouvido em investigação sobre suspeitas divulgadas há mais de 30 dias.

“A pergunta que fazemos é a seguinte: se essa denúncia envolvesse alguém do Partido dos Trabalhadores, teria sido essa mesma postura do Ministério Público Federal?”

A frase é um primor do cinismo petista.

Em primeiro lugar, não houve denúncia alguma do Ministério Público contra Fabrício Queiroz nem Flávio Bolsonaro, mas, sim, a identificação pelo Coaf de movimentação bancária atípica de 1 milhão e 200 mil reais do ex-assessor do então deputado estadual que resultou em investigação de Flávio na área cível por improbidade administrativa, suspensa por Luiz Fux até a palavra de Marco Aurélio Mello na volta do recesso do STF, quando o ministro deverá autorizar o prosseguimento.

Em segundo lugar, não é preciso imaginar a hipótese de ter havido um caso equivalente envolvendo algum petista porque esse caso existe e, na verdade, é o primeiro do ranking no mesmo relatório do Coaf, já que quatro assessores do deputado do PT André Ceciliano, presidente em exercício da Assembleia Legislativa do Rio, movimentaram 49 milhões e 300 mil reais.

A recordista, aliás, é Elisângela Barbieri, assessora de Ceciliano que movimentou 26 milhões e 500 mil reais. Várias das transferências que ela recebeu são ligadas a uma empresa de material de construção dela, mas há também depósitos e transferências de dois servidores da Alerj. Isto sem falar nas movimentações atípicas de assessores de outros deputados esquerdistas como Carlos Minc, do PSB, ex-ministro de Meio Ambiente do governo Lula, e Eliomar Coelho, do PSOL. Ceciliano, Minc e Eliomar estão entre os 26 deputados que continuam sendo investigados na área cível por improbidade administrativa.

Em terceiro lugar, quem os investiga é o Ministério Público do Rio de Janeiro, não o Federal, embora Paulo Pimenta tenha imaginado o que faria o Federal em razão, claro, do rancor petista com a condenação de Lula na Lava Jato. E o MP do Rio, na verdade, nem sequer revelou se ouviu Elisângela e outros assessores de Ceciliano, porque a investigação corre sob sigilo, exceto, na prática, justamente no caso de Flávio Bolsonaro, já que informações foram vazadas.

Em quarto lugar, não foi o PT de Paulo Pimenta que defendeu o fim das conduções coercitivas de investigados? E agora ele reclama que o MP ainda não ouviu investigados que não foram depor?

Mas Paulo Pimenta ainda continuou com suas perguntas retóricas desprovidas de lógica e sentido, seguidas de uma conclusão descabida:

“Haveria esse mesmo silêncio do juiz Sérgio Moro, do Deltan Dallagnol [procurador da Lava Jato], do [juiz] Marcelo Bretas? Alguém acredita que a maneira como as autoridades estão investigando seria a mesma? É evidente que há um sentimento de impunidade, de proteção.”

O ministro da Justiça Sergio Moro, quando era juiz da Lava Jato, nunca foi de falar sobre casos fora de seu juízo e, se alguma denúncia de fato chegasse até ele, ou a Marcelo Bretas, que ainda é juiz da Lava Jato no Rio, é evidente que eles não ficariam em silêncio, porque seriam seus deveres decidir aceitá-la ou rejeitá-la. Já Deltan Dallagnol, como membro do MPF, seria provavelmente um dos responsáveis por apresentar a denúncia, coisa que o MP do Rio, repito, ainda não fez.

Diante de uma investigação ampla e tão recente, falar em impunidade de adversários é só mais uma tentativa de limpar a sujeira do partido na eventual sujeira dos outros. E, se há algum sentimento de proteção, é o da proteção das autoridades e da maior parte da imprensa aos 26 deputados sobre os quais não se dá nem um 26 avos das informações vazadas e dadas sobre Flávio Bolsonaro.

Qualquer cidadão decente que não tenha sucumbido a uma militância fanática obviamente quer que tudo seja apurado e esclarecido, e que eventuais culpados, sejam quais forem, sejam punidos nos termos da lei. Mas o PT, que já fala até em CPI, também está batendo recorde em matéria de cinismo.