Felipe Moura Brasil: Toffoli, a história não te absolverá

  • Por Jovem Pan
  • 19/04/2019 17h15 - Atualizado em 20/04/2019 13h42
Will Shutter/Câmara dos DeputadosToffoli insiste que está certo

Em novembro de 2013, o militante petista Luis Fernando Verissimo “previu”:

“Quando exumarem esse processo do mensalão daqui a alguns anos, como agora fazem com os restos mortais do Jango Goulart, descobrirão traços de veneno, injustiças e descalabros que hoje não dão na vista ou são ignorados.”

Desde então, chamo de “estratégia Verissimo” essa negação da verdade comprometedora presente por meio do apelo a um futuro revisionismo supostamente redentor.

Claro que esse futuro não chegou.

“Alguns anos” (mais de cinco) já se passaram do artigo “Prisões” e, se houve traços de veneno então ignorados (para além da ausência de Lula, o maior beneficiário político do mensalão, naquele banco de réus), esses traços eram, na verdade, os do mensaleiro José Dirceu, que ainda seria condenado pela roubalheira petista na Petrobras, no maior esquema de corrupção da história, que também resultaria na prisão de Lula.

Eu valorizo, contudo, a importância de um intelectual com partido na fixação de narrativas e métodos a serem usados por seus membros e demais militantes (ainda que sejam variações do célebre “A história me absolverá”, documento com o discurso de defesa de Fidel Castro no julgamento do assalto ao Quartel Moncada em 1953).

Lula, por exemplo, vivia repetindo a estratégia Verissimo. Sobre o mensalão, ele dizia: “Eu só acho que essa história vai ser recontada para saber o que aconteceu na verdade.”

Durante o naufrágio do governo de sua afilhada Dilma Rousseff, Lula também afirmava que, um dia, os opositores iriam agradecer a ela “de joelhos” pelas medidas que tomou de combate à corrupção.

Em abril de 2015, quando o tesoureiro petista João Vaccari Neto foi preso (e ele está preso até hoje), o então presidente do PT, Rui Falcão, assinou uma nota que terminava “confiando que a verdade prevalecerá no final”.

Agora é a vez do advogado de carreira no PT e atual presidente do STF, Dias Toffoli.

Após o ministro Alexandre de Moraes recuar da censura imposta à matéria da Crusoé, que mostrou um documento com a citação do codinome de Toffoli por Marcelo Odebrecht (“amigo do amigo de meu pai”), não lhe bastou posar de quem se sacrificou por nós (“Às vezes, é necessário ser um cordeiro imolado para fazer o bem”), nem manter aberto seu inquérito genérico sobre supostos e eventuais ataques ao Supremo, enquanto xinga veículos independentes de “imprensa comprada”.

Ele também “previu” que “as pessoas, lá na frente, e inclusive a imprensa, vão reconhecer que estamos certos”.

Em relação a esquemas criminosos comprovados (como mensalão e petrolão) ou censuras autorizadas e assinadas (como a da dupla Toffoli e Moraes), eu só reconheço que, no passado do futuro alternativo desejado por petistas e seus afilhados, todos eles são inocentes.

E é esse “presente” que – reagindo dentro da lei aos ataques à liberdade de imprensa e à Lava Jato; e denunciando intimidações a jornalistas, procuradores e delatores – devemos impedi-los de forjar.

Quando exumarem o inquérito da censura daqui a alguns anos, confirmaremos, assim, os traços de veneno, injustiças e descalabros de dois ministros do STF.

* Felipe Moura Brasil é diretor de jornalismo da Jovem Pan.