Trajetória da Argentina traz lição importante ao Brasil

  • Por Jovem Pan
  • 11/05/2018 11h18
EFEExpectativas positivas em relação a Macri foram atropeladas pela política fiscal dos EUA e os caixas públicos internos

Se voltássemos a 100 anos atrás, veríamos uma Argentina rica, detentora da 5ª maior renda per capita do mundo e uma elite que contratava arquitetos europeus para desenharem suas mansões.

Buenos Aires tinha tantas livrarias quanto Paris e tantos teatros quanto Londres. Isso por causa da exuberância das exportações de matéria-prima do país sul-americano para a Europa. Carne, couro e trigo fizeram a riqueza dos argentinos na virada do século XIX para o XX.

No entanto, com duas guerras mundiais e o deslocamento do centro da economia global para os EUA, a Argentina perdeu competitividade, entrou em sucessivas crises de balanças de pagamento e respondeu a tudo isso com populismo e Estado inchado.

Por isso, nos últimos 70 anos a dívida externa e a inflação são companheiras de viagem da trajetória econômica argentina.

Os argentinos tiveram uma grande chance nos anos 2000 com a emergência da China, que entrou no mercado mundial como uma grande compradora de matérias-primas, o que aliviou as contas do País.

No entanto, os governos Kirchner, em vez de aproveitarem os bons ventos para fazer reformas modernizantes e diminuir o tamanho do Estado na economia, foram neopopulistas e simplesmente produziram mais inchaço e nada investiu em infraestrutura.

Em 2016, quando Mauricio Macri é eleito presidente do País, ele monta uma boa equipe econômica, uma excelente agenda de reformas.

As perspectivas positivas que seu governo emitiria ao mundo e a ideia de que a Argentina finalmente iria colocar a casa fiscal em ordem foram atropeladas nas últimas semanas com a possível mudança de política monetária nos EUA. Também porque, a cada caixa, sobretudo no setor público, que o governo de Macri abre, apresenta-se um pacote fiscal de horrores.

Isso mostra que mesmo um governo bem-intencionado, reformista, com ideias modernizantes, como Macri, fica assoberbado com o pesado choque da realidade.

É uma lição muito importante para os próximos meses no Brasil.

Assista ao comentário de Marcos Troyjo ao Jornal da Manhã:

Marcos Troyjo é graduado em ciência política e economia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em sociologia das relações internacionais pela USP e diplomata. É integrante do Conselho Consultivo do Fórum Econômico Mundial, diretor do BRICLab da Universidade Columbia.