Constantino: Bolsonaro flertou com populismo autoritário ao falar que o povo está acima das instituições

  • Por Rodrigo Constantino/Jovem Pan
  • 02/07/2019 06h08
Jovem Pan No último domingo (30), manifestantes foram às ruas em apoio a Bolsonaro; muitos criticavam o STF, o Senado e a Câmara dos Deputados

As manifestações em Hong Kong, contra uma proposta de extradição para a China para julgamentos, ganharam intensidade esta segunda, quando uma parte da população tentou invadir a sede do governo e o legislativo. O povo de Hong Kong, acostumado à liberdade garantida pelo império britânico, não vai aceitar docilmente ser subjugado pelo regime opressor chinês. O preço da liberdade é a eterna vigilância.

Não demorou, porém, para que as alas mais radicais do bolsonarismo vissem nisso uma inspiração para o Brasil. Investindo na narrativa binária e maniqueísta de que o presidente é um heroi e o Congresso é o inimigo, um conhecido olavista perguntou: “Isentosefera já condenou invasão do executivo e do legislativo de Hong Kong pelo povo em luta contra opressão chinesa ou ainda não deu tempo de defender “as instituições” do outro lado do mundo?” Implícita em sua mensagem está a ideia de que o Brasil vive numa ditadura comunista, sendo que o presidente é… Jair Bolsonaro!

O discurso apela para a ideia de que o presidente, incorporando a “vontade geral” e falando em nome do “povo”, não consegue governar porque as instituições, dominadas pelo establishment corrupto, não permitem. O próprio presidente, ao agradecer pelas manifestações deste domingo, flertou perigosamente com esse populismo autoritário ao falar que o povo está acima das instituições. Um populista autoritário é aquele que investe contra as instituições republicanas em nome do povo. Impossível não acompanhar a indignação popular com certas figuras do mundo político, com certos ministros do nosso Supremo, que deveria ser o guardião da Constituição. Inegável que há muitos problemas em nossas instituições. Mas a solução não está num líder messiânico que se transforma numa espécie de ventríloquo do “povo”, absorvendo não só sua fala como seus desejos.

O povo expressa sua vontade por meio das urnas, das manifestações, das redes sociais, e há muito mais cacofonia do que uníssono, ainda que algumas pautas consigam, de fato, atrair uma grande maioria. Ninguém representa sozinho a “vontade popular”.

As mudanças necessárias devem vir por meio das próprias instituições, mesmo que sob pressão popular. Mas jamais por canetadas ou decretos de cima para baixo de alguém que se veja como símbolo desse tal povo. Quem não votou em Bolsonaro também é povo. Quem não estava nas ruas neste domingo certamente é povo. E é para proteger dissidentes da maioria – se mesmo maioria – que existem as tais instituições. Elas precisam ser fortalecidas, não demolidas.