Constantino: Moro é um herói falho, mas é um herói louvável

  • Por Rodrigo Constantino/Jovem Pan
  • 14/06/2019 07h44
ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO'É humano, falível, imperfeito. Isso é o óbvio! Mas pode sim, deve!, ser admirado', diz comentarista

Alguém dúvida que Churchill tenha sido um grande herói e um dos maiores estadistas do mundo? Pois é. Mas Churchill estava bem longe de ser alguém perfeito. Ao contrário: tinha vários defeitos conhecidos, um passado não muito louvável, e isso porque não havia hacker para expor conversas privadas suas.

Pobre do povo que precisa de heróis? Discordo de Brecht. Pobre do povo que tem os heróis errados, como Macunaíma, como Lula. Ter heróis é importante para inspirar, como norte moral. Claro que os heróis de ficção ou os mitos fundadores são mais seguros, pois não existem ou não vivem mais. Os “pais fundadores” são heróis do segundo tipo para americanos, enquanto Batman é um herói do primeiro tipo, despertando a “imaginação moral” no público.

Colocar num patamar de herói um ser humano imperfeito, falível, é sempre um risco. Eventualmente algum dado desabonador pode vir à tona, expor um lado mais sombrio seu. Mas mesmo sendo arriscado, acho que um povo precisa escolher seus heróis sim, e que sejam aqueles melhores entre nós, os mais corajosos, íntegros, com virtudes que aprendemos a estimar justamente porque raras.

Tudo isso é para chegar em Sergio Moro. Um juiz que teve a coragem de ir para o sacrifício pessoal, arriscando a própria vida para punir corruptos perigosos de uma imensa organização criminosa. E que fez isso, ao que tudo indica até aqui, buscando permanecer dentro dos limites da lei, de forma republicana.

Em nosso país é sempre preciso dizer o óbvio: isso não quer dizer que os nobres fins justificam quaisquer meios, ou que Moro deva estar acima de críticas, ou que a Lava Jato não tenha comedido excessos que precisam ser denunciados ou corrigidos. O que isso quer dizer é que chama a atenção o cinismo, a hipocrisia e o oportunismo das “virgens do bordel”, aquelas que demandam uma pureza plena inexistente dos xerifes, enquanto fazem de tudo para relativizar a roubalheira dos bandidos.

Moro não precisa ser endeusado, colocado num pedestal, acima do bem e do mal ou de críticas. É humano, falível, imperfeito. Isso é o óbvio! Mas pode sim, deve!, ser admirado, respeitado, e ter seu trabalho corajoso louvado. Graças a ele e aos procuradores, policiais federais e tantos outros, uma enorme quadrilha foi desbaratada, bilhões foram devolvidos aos cofres públicos, e gente muito rica e poderosa foi presa, alimentando o sonho de igualdade perante as leis em nosso país. É isso que muita gente não perdoa em Moro!