Constantino: Quem se recusa a participar de manifestação não é ‘traidor’ ou ‘vendido’

  • Por Rodrigo Constantino/Jovem Pan
  • 22/05/2019 09h36
Fábio Motta/Estadão ConteúdoUm número expressivo quer partir logo para um despotismo “esclarecido” (imagem ilustrativa)

Estudei estatística na faculdade de Economia, então podem ficar tranquilos: não acho que minha enquete seja perfeita. Primeiro, porque a fiz na rede social, o que já é uma amostra enviesada, uma vez que o Twitter não pode se confundir com o povo. Segundo, porque foi feita com o meu público, que já é também enviesado e não representa uma distribuição normal da população.

Mas, mesmo com essas ressalvas, o resultado é um pouco assustador, ainda que esperado, para mim ao menos. Perguntei se era desejável fechar o Congresso na marra para que o presidente pudesse governar por decretos. Parêntese: houve quem visse nisso um desejo meu de tal coisa, o que só a ignorância ou a má-fé justificam. Eis o resultado: 32% SIM; 60% NÃO; 8% TALVEZ.

Foram mais de 30 mil votos, o que não é desprezível. Um terço diz abertamente que quer fechar o Congresso mesmo, para conferir poderes absolutistas ao presidente eleito. E outros 8% estão na dúvida.

Entendo a revolta popular com o Congresso, que virou sinônimo de “centrão fisiológico”. O discurso de que esses “bandidos” estão boicotando as reformas do governo seduziu muita gente, e é parcialmente verdade.

Como o “povo” não tem paciência, e nunca demonstrou muito apreço pelas regras do jogo democrático, número expressivo quer partir logo para um despotismo “esclarecido”. Sim, pois é disso que se trata a questão.

Desafiei olavetes e bolsonaristas fanáticos a fazerem a mesma enquete, mas nenhum se animou. Entendo. Com certeza os resultados seriam muito piores, talvez invertidos: uns 60% do público deles deve aplaudir com empolgação esse caminho autoritário, no mínimo. Fazer essa enquete derrubaria certas máscaras, e isso eles não aceitam.

A manifestação governista do dia 26, que teve convocação do próprio presidente, ganhou adeptos mais moderados de peso, e agora foca numa pauta objetiva de reformas. Mas eis o problema: se for sucesso de público, dá peso aos radicais também, ajuda a endossar as mensagens raivosas e autoritárias dos jacobinos de direita, que querem partir para um regime tirânico populista.

Entendo e respeito quem discorda de minha análise e pretende fazer coro a esse protesto governista no dia 26. Mas, diante dessa pesquisa e de tudo que sabemos sobre “massas nas ruas”, acho que esses também deveriam tentar compreender quem, como eu, recusa-se a participar, sem acusá-los de “traidores” ou “vendidos”.